sexta-feira, 4 de julho de 2008

NASCIDOS ESCRAVO - Lutero

E-book digitalizado por: Levita Digital
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ANTES DE LER

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E-books Evangélicos




Nascido Escravo

Martinho Lutero



Uma versão condensada e de fácil leitura do clássico de Martinho Lutero, A Escravidão da Vontade, publicada inicialmente em 1525.








Preparado por Clifford Pond
Editor Geral: J.K. Davies, B.D., Th.D.






EDITORA FIEL da
MISSÃO EVANGÉLICA LITERÁRIA







NASCIDO ESCRAVO
Traduzido do original em inglês:
BORN SLAVES



Copyright © 1984 Grace Publications Trust



Segunda edição em português — 2001




EDITORA FIEL da
Missão Evangélica Literária
Caixa Postal 81
12201-970 São José dos Campos, SP



Índice




Prefácio: A Questão
Introdução: O Pano de Fundo do Livro e a Controvérsia com Erasmo
Capítulo 1: O Que Ensinam as Escrituras
Capítulo 2: O Que Erasmo Ensinava
Capítulo 3: O Que Lutero Pensava Sobre o Ensino de Erasmo
Capítulo 4: Comentário de Lutero Sobre o Estudo de Erasmo Acerca de Textos Que Negam o "Livre-arbítrio"



Pós-escrito: História Posterior da Controvérsia e sua Importância Atual
(O material neste livro que se acha nos capítulos 1 a 4 é uma condensação da obra de Lutero, A Escravidão da Vontade. O prefácio, a introdução e o pós-escrito são comentários atuais sobre a obra de Lutero. O Editor)


Prefácio

A Questão

A questão é: Possui o homem algo chamado "livre--arbítrio"? Pode um ser humano, voluntariamente e sem qualquer ajuda, voltar-se para Cristo, para ser salvo de seus pecados? Erasmo respondia com um "Sim!" Lutero, com um ressoante "Não!" Lutero estava convencido de que o conceito do "livre-arbítrio" fere no âmago a doutrina bíblica da salvação exclusivamente pela graça divina. Necessitamos ter a mesma convicção. Precisamos combater o "livre--arbítrio" tão vigorosamente quanto o fazia Lutero. Erasmo, o seu opositor, dizia: "Posso conceber o 'livre-arbítrio' como um poder da vontade humana, mediante o qual um homem pode aplicar-se àquelas coisas que conduzem à eterna salvação, ou pode afastar-se delas". A isso devemos replicar com um resoluto "Não! O homem já nasce como escravo do pecado!" O homem não é livre.




























Introdução

O Pano de Fundo do Livro e a Controvérsia com Erasmo
Martinho Lutero escreveu "A Escravidão da Vontade" como reação aos ensinamentos de Desidério Erasmo. Nascido em Rotterdam, na Holanda entre 1466 e 1469, Erasmo foi monge agostiniano durante sete anos, antes de viajar para a Inglaterra, onde foi motivado a aprofundar seu conhecimento do grego, chegando a produzir um texto crítico do Novo Testamento Grego (1516). Erasmo rejeitava os métodos fantasiosos de interpretação das Escrituras, bem como as muitas superstições dos mestres da Igreja Católica Romana. Rebelou-se contra a preguiça e o vício, comuns nos mos­teiros, mas, apesar disso, não foi um crente no evangelho. Ele era um humanista, pois acreditava que os homens podem conquistar a salvação, ao invés de dependerem exclusiva­mente de Jesus Cristo — em sua morte e ressurreição. Erasmo acertadamente preferia uma abordagem simples do ensina­mento cristão aos complicados e pormenorizados métodos dos teólogos profissionais. Ele evitava as controvérsias, e, por longo tempo, não procurou tratar publicamente sobre o conceito do "livre-arbítrio", no entanto, ao fazê-lo, cons­tituiu um desafio que Martinho Lutero não pôde ignorar. Martinho Lutero nasceu na Saxônia (hoje parte da Alemanha) e era uns catorze anos mais jovem do que Erasmo. Enquanto ainda era um monge passou por uma dramática experiência com o evangelho da graça de Deus. A partir de então, compreendeu que cada crença e experiência precisa ser testada através da autoridade das Escrituras Sagradas. Ele entendeu que a salvação é recebida como uma graça divina, "mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie" (Ef 2.8,9). A sua própria experiência confirmou essa sua convicção.
Lutero era professor, teólogo e também pastor. Os membros de sua igreja sabiam que ele sentia o que pregava. Ele não era um erudito seco e indiferente. Ele sentia a pressão da eternidade cada vez que pregava. Isso o compelia, algumas vezes, a fazer coisas impopulares e, por vezes, perigosas. Era alguém disposto a defender a verdade de Deus, ainda que fosse contra o mundo inteiro.
A princípio, Erasmo parecia ser um dos aliados de Lutero, visto que ambos rejeitavam muitos dos erros e falhas da Igreja de Roma. Todavia, Lutero desafiava cada vez com maior intensidade o ensinamento romanista da salvação me­diante as obras, insistindo que "o justo viverá por fé" (Rm 1.17). Entrementes, Erasmo continuava na Igreja de Roma, e, como era um erudito, cedeu à pressão de sua igreja para defender o ensino do "livre-arbítrio". Desafiando a soli­citação de Lutero para que não fizesse tal coisa, Erasmo publicou sua "Discussão Sobre o Livre-Arbítrio", em 1524, tendo escrito a Henrique VIII nestes termos: "Os dados foram lançados. O livreto sobre o 'livre-arbítrio' acaba de ver a luz do dia''. O livro agradou ao Papa e ao Sacro Imperador Romano, e foi elogiado por Henrique VIII.
Este fato levou Lutero a declarar que Erasmo era um adversário da fé evangélica. Deus controlou soberanamente a intensa luta entre esses dois homens, para vantagem de seu reino. O conflito produziu uma grandiosa declaração da doutrina evangélica que tem enriquecido a Igreja de Cristo desde então, a saber, o livro de Lutero, "A Escravidão da Vontade". Oferecemos aqui uma edição abreviada dessa grande obra. Pudemos reter muito do estilo de Lutero, embora não tenhamos seguido sua ordem de apresentação. Come­çamos por onde Lutero terminou, sumariando a sua posição doutrinária sobre a escravidão da vontade humana. Seguimos com outras seções, onde Lutero apresenta e, em seguida refuta os argumentos de Erasmo.
O estilo de Lutero normalmente nos impeliria a acres­centar certas palavras, toda vez que ele emprega a expressão "livre-arbítrio". Por exemplo: o livre-arbítrio que você supõe que existe. Entretanto, temos preferido refletir o sentido tencionado por Lutero usando aspas — "livre-arbítrio". E, nos capítulos dois, três e quatro, retivemos o discurso direto de Lutero, conservando, tanto quanto possível, a atmosfera de sua obra.
Não incluímos cada argumento utilizado por Lutero, porque, se o fizéssemos, isso ampliaria indevidamente este sumário.








































Capítulo Um

O Que Ensinam as Escrituras

Argumento 1: A culpa universal da humanidade prova que o "livre-arbítrio" é falso

Argumento 2: O domínio universal do pecado prova que o "livre-arbítrio" é falso

Argumento 3: O "livre-arbítrio" não pode obter aceitação diante de Deus através da observância da lei moral e cerimonial

Argumento 4: A lei tem o propósito de conduzir os homens a Cristo, dando-lhes o conhecimento do pecado

Argumento 5: A doutrina da salvação pela fé em Cristo prova que o "livre-arbítrio" é falso.

Argumento 6: Não há lugar para qualquer idéia de mérito ou recompensa pelas boas obras

Argumento 7: O "livre-arbítrio" não tem valor porque as obras nada têm a ver com a justiça do homem diante de Deus

Argumento 8: Um punhado de refutações

Argumento 9: Paulo é absolutamente claro ao refutar o "livre-arbítrio"

Argumento 10: O estado do homem sem o Espírito de Deus mostra que o "livre-arbítrio" nada pode fazer de natureza espiritual

Argumento 11: Aqueles que chegam a conhecer a Cristo não pensavam previamente sobre Cristo, nem O buscavam, nem se prepararam para conhecê-Lo

Argumento 12: A salvação para o mundo pecaminoso é pela graça de Cristo, exclusivamente me­diante a fé

Argumento 13: O caso de Nicodemos, no terceiro capítulo de João, opõe-se ao "livre-arbítrio".

Argumento 14: O "livre-arbítrio" não tem utilidade, pois a salvação vem somente por meio de Cristo

Argumento 15: O homem é incapaz de crer no evangelho, por isso todos os seus esforços não podem salvá-lo

Argumento 16: A incredulidade universal prova que o "livre-arbítrio" é falso

Argumento 17: O poder da carne, mesmo em verdadeiros crentes, mostra a falsidade do "livre-arbítrio' '

Argumento 18: Saber que a salvação não depende do "livre-arbítrio" pode ser muito reconfortante

Argumento 19: A honra de Deus não pode ser maculada.


As Escrituras são como diversos exércitos que se opõem à idéia de que o homem tem um "livre-arbítrio" para escolher e receber a salvação. Porém, basta-me trazer à frente de batalha dois generais — Paulo e João, com algumas de suas forças.





































Argumento 1: A culpa universal da humanidade prova que o "livre-arbítrio" é falso.
Em Romanos 1.18, Paulo ensina que todos os homens, sem qualquer exceção, merecem ser castigados por Deus. "A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça." Se todos os homens possuem "livre-arbítrio", ao mesmo tempo que todos, sem qualquer exceção, estão debaixo da ira de Deus, segue-se daí que o "livre-arbítrio" os está conduzindo a uma única direção — da "impiedade e da iniqüidade". Por­tanto, em que o poder do "livre-arbítrio" os está ajudando a fazer o que é certo? Se existe realmente o "livre-arbítrio", ele não parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação, porquanto os deixa sob a ira de Deus.
Algumas pessoas, no entanto, acusam-me de não se­guir bem de perto a Paulo. Eles afirmam que as palavras dele, "contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça" não significam que todos os seres humanos, sem exceção, estão culpados aos olhos de Deus. Eles argumentam que o texto dá a entender que algumas pessoas não "detêm a verdade pela injustiça". Entretanto, Paulo estava usando uma construção de frase tipicamente hebraica, que não deixa dúvida de que ele se referia à impiedade de todos os homens.
Além do mais, notemos o que Paulo escreveu ime­diatamente antes dessas palavras. No versículo 16, Paulo declara que o evangelho é "o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê". Isso significa que, não fosse o poder de Deus conferido através do evangelho, ninguém teria forças, em si mesmo, para voltar-se para Deus. Paulo prossegue, asseverando que isso tem aplicação tanto aos judeus quanto aos gentios. Os judeus conheciam as leis di­vinas em seus mínimos detalhes, mas isso não os poupou de estarem debaixo da ira de Deus. Os gentios desfrutavam de admiráveis benefícios culturais, mas esses não os aproximaram em nada de Deus. Havia judeus e gentios que muito se esforçavam por acertar a sua situação diante de Deus, mas, apesar de todas as suas vantagens e de seu "livre--arbítrio", eles fracassaram totalmente. Paulo não hesitou em condenar a todos eles.
Observemos igualmente que, no versículo 17, Paulo diz que "a justiça de Deus se revela". Por conseguinte, Deus mostra a sua retidão aos homens. Deus, porém, não é um tolo. Se os homens não precisassem da ajuda divina, Ele não desperdiçaria o seu tempo prestando-lhes tal ajuda. A conversão de qualquer pessoa acontece quando Deus vem até ela e vence-lhe a ignorância ao revelar-lhe a verdade do evangelho. Sem isso, ninguém jamais poderia ser salvo. Ninguém, durante toda a história humana, concebeu por si mesmo a realidade da ira de Deus, conforme ela nos é en­sinada nas Escrituras. Ninguém jamais sonhou em estabelecer a paz com Deus por intermédio da vida e da obra de um Salvador singular, o Deus-Homem, Jesus Cristo. De fato, o que ocorre é que os judeus rejeitaram a Cristo, apesar de todo o ensino que lhes foi ministrado por seus profetas. Parece que a justiça própria alcançada por alguns judeus ou gentios levou-os a deixarem de buscar a justiça Divina através da fé, para fazerem as coisas à sua própria maneira. Portanto, quanto mais o "livre-arbítrio" se esforça, tanto piores tornam-se as coisas.
Não existe um terceiro grupo de pessoas, que se situe em algum ponto entre os crentes e os incrédulos — um grupo de homens capazes de salvarem-se a si mesmos. Judeus e gentios constituem a totalidade da humanidade, e todos eles estão debaixo da ira de Deus. Ninguém tem a capacidade de voltar-se para Deus. Deus precisa tomar a iniciativa e revelar-Se a eles. Se fosse possível ao "livre-arbítrio" dos homens descobrir a verdade, certamente algum judeu, em algum lugar, tê-lo-ia feito! Os mais elevados raciocínios dos gentios e os mais intensos esforços dos melhores dentre os judeus (Rm 1.21; 2.23,28,29) não conseguiram aproximá-los nem um pouco sequer da fé em Cristo. Eles eram pecadores condenados juntamente com todo o resto dos homens. Ora, se todos os homens são possuidores de "livre-arbítrio", e todos os homens são culpados e estão condenados, então esse suposto "livre-arbítrio" é impotente para conduzi-los à fé em Cristo. Por conseguinte, a vontade dos homens, afinal, não é livre.


Argumento 2:0 domínio universal do pecado prova que o "livre-arbítrio" é falso.
Precisamos permitir que Paulo explique o seu próprio ensina­mento. Diz ele em Romanos 3.9: "Que se conclui? Temos nós [os judeus] qualquer vantagem [sobre os gentios]? não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado".
Não somente são todos os homens, sem qualquer exceção, considerados culpados à vista de Deus, como tam­bém são escravos desse mesmo pecado que os torna culpados. Isso inclui os judeus, os quais pensavam que não eram servos do pecado porque possuíam a lei de Deus. Mas, visto que nem judeus nem gentios têm-se mostrado capazes de desvencilharem-se dessa servidão, torna-se evidente que no homem não há poder que o capacite a praticar o bem.
Essa escravidão universal ao pecado inclui até mesmo aqueles que parecem ser os melhores e mais retos. Não importa o grau de bondade que um homem possa alcançar; isso não é a mesma coisa que possuir o conhecimento de Deus. O mais admirável que há nos homens é sua razão e sua vontade, todavia, é forçoso reconhecer que essa mais nobre porção dos homens está corrompida. Diz Paulo, em Romanos 3.10-12: "Não há justo, nem sequer um, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extra­viaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer". O significado dessas palavras é perfeitamente claro. Deus é conhecido através da razão e da vontade humanas. Porém, nenhum ser humano, somente por sua natureza, conhece a Deus. Precisamos concluir, por conseguinte, que a vontade humana está corrompida e que o homem é totalmente incapaz, por si mesmo, de conhecer a Deus ou de agradá-Lo.
Talvez alguma pessoa audaciosa atreva-se a dizer que somos capazes de fazer mais do que de fato fazemos; porém, o que aqui nos interessa é o que somos capazes de fazer, e não o que estamos ou não estamos fazendo. O trecho das Escrituras citado por Paulo, em Romanos 3.10-12, não nos autoriza a fazer tal distinção. Deus condena tanto a incapaci­dade pecaminosa dos homens quanto os seus atos corruptos. Se os homens fossem capazes, ainda que o mínimo possível, de movimentarem-se na direção de Deus, não haveria mais qualquer necessidade de Deus salvá-los. Deus permitiria que os homens salvassem-se a si mesmos. Porém, nenhum deles está apto nem ao menos a fazer a tentativa.
No trecho de Romanos 3.19, Paulo declara que toda boca se calará diante de Deus, porque ninguém poderá ar­gumentar contra o julgamento divino, visto que nada existe, em pessoa alguma, digno de ser elogiado pelo Senhor — nem ao menos um arbítrio livre para voltar-se espontanea­mente para Ele. Se alguém disser: "Tenho uma capacidade própria, ainda que pequena, de voltar-me para Deus", esse alguém deve estar querendo dizer que pensa que nele há alguma coisa a qual Deus possa elogiar e não condenar. Sua boca não está calada, mas tal idéia contradiz as Escrituras.
Deus ordenou que toda boca ficasse calada. Não é apenas certos grupos de pessoas que são culpados diante de Deus. Não apenas os fariseus, dentre o povo israelita, estão condenados. Se isso fosse verdade, então os demais judeus teriam tido alguma capacidade própria para guardar a lei e evitar de tornarem-se culpados. Porém, até mesmo os melhores dentre os homens estão condenados por sua impiedade. Estão espiritualmente mortos, da mesma forma que aqueles que de maneira alguma procuram guardar a lei de Deus. Todos os homens são ímpios e culpados, e merecem ser punidos por Deus. Essas coisas são tão evidentes que ninguém pode nem mesmo sussurrar uma palavra contra elas!


Argumento 3:0 "livre-arbítrio" não pode obter aceitação diante de Deus através da observância da lei moral e cerimonial.
Eu argumento que quando Paulo disse em Romanos 3.20,21: "...ninguém será justificado diante dele por obras da lei", pensou na lei moral (os dez mandamentos), bem como na lei cerimonial. Tem-se generalizado a idéia de que Paulo tinha em mente apenas a lei cerimonial — o ritual de sacri­fícios de animais e a adoração no templo. É espantoso que chamem Jerônimo, que criou essa idéia, de santo! Eu o clas­sificaria de forma bem diferente! Jerônimo declarou que a morte de Cristo pôs fim a qualquer possibilidade de alguém ser justificado (ou declarado justo) por meio da observância da lei cerimonial. Mas deixou inteiramente aberta a possi­bilidade de alguém ser justificado mediante a observância da lei moral, contando apenas com as suas próprias forças, sem a ajuda de Deus.
Minha resposta a isso é que se Paulo quis dar a enten­der somente a lei cerimonial, então o argumento do apóstolo não tem qualquer significado. Paulo estava afirmando que todos os homens são injustos e necessitados da graça especial de Deus — o amor, a sabedoria e o poder de Deus — por intermédio dos quais Ele nos salva. O resultado da idéia de Jerônimo seria que a graça de Deus é necessária para salvar-nos da lei cerimonial, mas não da lei moral. Toda­via, nós não podemos observar a lei moral à parte da graça divina. Você pode intimidar as pessoas para que observem as cerimônias, mas nenhum poder humano pode forçá-las a guardar a lei moral. Paulo estava argumentando que não podemos ser justificados diante de Deus mediante a tentativa de guardar a lei moral, ou mesmo a lei cerimonial. Comer e beber, e fazer outras coisas semelhantes, em si mesmos, nem nos justifica nem nos condena.
Irei ainda mais longe, afirmando que Paulo queria dizer que a totalidade da lei, e não alguma porção particular dela, é obrigatória a todos homens. Se a lei não se aplicasse mais aos homens devido a morte de Cristo, tudo quanto Paulo precisava dizer era isto e nada mais. Em Gaiatas 3.10, Paulo escreveu: "Todos quantos, pois, são das obras da lei, estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as cousas escritas no livro da lei, para praticá-las". Nesse texto, Paulo busca apoio em Moisés para afirmar que a lei é imposta sobre todos os ho­mens, e que o fracasso na obediência à lei sujeita todos os homens à maldição divina.
Nem os homens que procuram obedecer a lei, nem aqueles que não tentam guardá-la estão justificados diante do Senhor, porquanto todos estão espiritualmente mortos. O ensinamento de Paulo é que há duas classes de pessoas no mundo — aquelas que estão espiritualmente vivas e aquelas que não estão. Isso está em harmonia com o ensinamento de Jesus Cristo em João 3.6: "O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito". Para as pessoas que não possuem o Espírito Santo, a lei é sem utilidade. Não importa quanto procurem guardar a lei, não serão justificadas exceto pela fé.
Finalmente, portanto, se existe tal coisa como o "livre--arbítrio", deve ser a mais nobre das capacidades humanas, porque, mesmo sem o Espírito Santo, professa possibilitar o homem a guardar a lei inteira! Entretanto, Paulo assevera que aqueles que são das "obras da lei" não estão justificados. Isso significa que o "livre-arbítrio", mesmo considerado por seu melhor ângulo, é incapaz de corrigir a situação do homem diante de Deus. De fato, em Romanos 3.20, Paulo afirma que a lei é necessária para mostrar-nos no que consiste o pecado: ".. .pela lei vem o pleno conhecimento do pecado''. Aqueles que são das "obras da lei" não são capazes de reconhecer o que o pecado realmente é. A lei não foi dada a fim de mostrar aos homens o que eles podem fazer, mas para corrigir as suas idéias sobre o que é o certo e o errado aos olhos de Deus. O "livre-arbítrio" é cego, porquanto precisa ser ensinado pela lei. E também é impotente, pois não consegue justificar a ninguém diante de Deus.


Argumento 4: A lei tem o propósito de conduzir os homens a Cristo, dando-lhes o conhecimento do pecado.
O argumento a favor do "livre-arbítrio" é que a lei não nos teria sido dada se não fôssemos capazes de obedecê-la. Erasmo, por repetidas vezes você tem dito: "Se nada po­demos fazer, qual é o propósito das leis, dos preceitos, das ameaças e das promessas?" A resposta é que a lei não foi dada para mostrar-nos o que podemos fazer. Nem mesmo a fim de ajudar-nos a fazer o que é correto. Diz Paulo, em Romanos 3.20: "...pela lei vem o pleno conhecimento do pecado". O propósito da lei foi o de mostrar-nos no que consiste o pecado e ao que ele nos conduz — à morte, ao inferno e à ira de Deus. A lei só pode destacar essas coisas. Não pode livrar-nos delas. O livramento nos chega exclusiva­mente através de Cristo Jesus, que nos é revelado através do evangelho. Nem a razão nem o "livre-arbítrio" podem conduzir os homens a Cristo, visto que a razão e o "livre--arbítrio" precisam da luz da lei para mostrar-lhes sua enfermidade. Paulo faz esta indagação em Gaiatas 3.19: "Qual, pois, a razão de ser da lei?" Entretanto, a resposta de Paulo à sua própria pergunta é o contrário da resposta que você e Jerônimo dão. Você diz que a lei foi dada a fim de provar a existência do "livre-arbítrio". Jerônimo diz que ela tem o propósito de restringir o pecado. Mas Paulo não diz nada disso. Seu argumento todo é que os homens precisam de graça especial para combaterem contra o mal que a lei desvenda. Não pode haver cura enquanto a enfermidade não for diagnosticada. A lei é necessária para fazer os homens perceberem a perigosa condição em que estão, a fim de que anelem pelo remédio que se encontra somente na pes­soa de Cristo. Portanto, as palavras de Paulo, em Romanos 3.20, podem parecer muito simples, mas elas têm poder suficiente para fazer com que o "livre-arbítrio" seja total e completamente inexistente. Diz Paulo em Romanos 7.7: ''.. .pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás". Isso significa que o "livre-arbítrio" nem mesmo reconhece o que o pecado é! Como, pois, poderia chegar a conhecer o que é certo? E, se não sabe reconhecer o que é certo, como poderia esforçar-se por fazer o que é certo?


Argumento 5: A doutrina da salvação pela fé em Cristo prova que o "livre-arbítrio" é falso.
No trecho de Romanos 3.21-25, Paulo proclama com toda a confiança: "Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que crêem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante o redenção que há em Cristo Jesus; a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé..." Essas palavras são quais raios contra a idéia do "livre-arbítrio". Paulo faz distinção entre a justiça conferida por Deus e a justiça que vem me­diante a observância da lei. O "livre-arbítrio" só poderia ser uma realidade se o homem pudesse ser salvo mediante a observância da lei. Não obstante, Paulo demonstra clara­mente que somos salvos sem dependermos, em absoluto, das obras da lei. Sem importar o quanto possamos imagi­nar um suposto "livre-arbítrio", como capaz de praticar boas obras ou de tornar-nos bons cidadãos, Paulo continua asseverando que a justiça dada por Deus é de natureza in­teiramente diferente. É impossível que o "livre-arbítrio" consiga resistir a assaltos de versículos como esses.
Esses versículos desfecham ainda outro raio contra o "livre-arbítrio". Neles, Paulo traça uma linha distintiva entre os crentes e os incrédulos (Rm 3.22). Ninguém pode negar que o suposto poder do "livre-arbítrio" é bem diferente da fé em Jesus Cristo. Mas sem fé em Cristo, conforme Paulo esclarece, ninguém pode ser aceito por Deus. E se alguma coisa é inaceitável para Deus, então é pecado. Não pode ser algo neutro. Por conseguinte, o "livre-arbítrio", se existe, é pecado, visto que se opõe à fé e não redunda em glória a Deus.
O trecho de Romanos 3.23 constitui-se em mais outro raio. Paulo não diz que todos pecaram, exceto aqueles que praticam boas obras mediante seu próprio "livre-arbítrio". Não há exceções. Se fosse possível nos tornarmos aceitáveis diante de Deus através do "livre-arbítrio", então Paulo seria um mentiroso. Ele deveria ter dado margem a exceções. No entanto, Paulo afirma, categoricamente, que em face do pecado ninguém pode realmente glorificar e agradar a Deus. Todo aquele que agrada ao Senhor deve saber que Deus está satisfeito com ele. Porém, a nossa experiência ensina-nos que coisa alguma em nós agrada a Deus. Per­gunte àqueles que defendem o "livre-arbítrio" se existe neles alguma coisa que agrada a Deus. Eles serão forçados a admitir que não existe. E é isto que Paulo claramente afirma.
Até mesmo aqueles que acreditam no "livre-arbítrio" precisam concordar comigo que não podem glorificar a Deus, contando apenas com os seus próprios recursos. A despeito do seu "livre-arbítrio", eles têm dúvida se podem agradar a Deus. Assim, eu provo, com base no testemunho da própria consciência deles, que o "livre-arbítrio" não agrada a Deus. Apesar de todos os seus esforços e de seu empenho, o "livre--arbítrio" é culpado do pecado de incredulidade. Portanto, vemos que a doutrina da salvação pela fé é completamente contrária a qualquer idéia de "livre-arbítrio".


Argumento 6: Não há lugar para qualquer idéia de mérito ou recompensa pelas boas obras.
Aqueles que pregam o "livre-arbítrio" afirmam que se não há "livre-arbítrio" então também não há lugar para o mérito ou para a recompensa.
O que dirão os defensores do "livre-arbítrio" a res­peito da palavra "gratuitamente", em Romanos 3.24? Paulo diz que os crentes são "justificados gratuitamente por sua graça". Como interpretam "por sua graça"? Se a salvação é gratuita e oferecida pela graça divina, então não se pode conquistá-la ou merecê-la. No entanto, Erasmo argumenta que a pessoa deve ser capaz de fazer alguma coisa a fim de merecer a sua salvação, ou ela não merecerá ser salva. Erasmo pensa que a razão pela qual Deus justifica uma pessoa e não outra, é que uma delas usou de seu "livre-arbítrio", e tentou tornar-se justa, enquanto que a outra não o fez. Ora, isso transforma Deus em alguém que diferencia pessoas, ao passo que a Bíblia ensina que Deus não faz acepção de pessoas (At 10.34). Erasmo e algumas outras pessoas, como ele, admitem que os homens conseguem fazer muito pouco através de seu "livre-arbítrio" para obterem a salvação. Afirmam que o "livre-arbítrio" tem apenas um pouco de merecimento — não é digno de muita recompensa. E, não obstante, ainda pensam que o "livre-arbítrio" torna possível às pessoas tentarem encontrar a Deus. Imaginam, igualmente, que se as pessoas não tentam encontrá-Lo, cabe exclusiva­mente a elas a culpa, se não recebem a graça divina.
Portanto, sem importar se esse "livre-arbítrio" tem grande ou pequeno mérito, o resultado é o mesmo. A graça de Deus seria obtida por meio do "livre-arbítrio". Toda­via, Paulo nega toda a noção de mérito quando afirma que somos justificados "gratuitamente". Aqueles que dizem que o "livre-arbítrio" possui apenas um pequeno mérito erram tanto como aqueles que dizem que ele possui muito mérito, pois ambos ensinam que o "livre-arbítrio" tem mérito suficiente para obter o favor de Deus. Portanto, em quase coisa alguma diferem um do outro.
Na verdade esses defensores da idéia do "livre--arbítrio" nos dão um perfeito exemplo do que significa "saltar da frigideira para dentro do fogo". Quando eles dizem que o "livre-arbítrio" tem apenas um pequeno mérito, eles pioram a sua posição, ao invés de melhorá-la. Pelo menos aqueles que dizem que o "livre-arbítrio" envolve um grande mérito (os chamados "pelagianos") conferem um elevado preço à graça divina, porquanto concebem que um grande mérito é necessário para alguém obter a salvação. Todavia, Erasmo barateia a graça divina, podendo ser obtida por meio de um débil esforço. No entanto, Paulo transforma em nada essas duas idéias usando apenas uma palavra — "gratuita­mente" (Rm 3.24). Mais adiante, em Romanos 11.6, ele assevera que a nossa aceitação diante de Deus depende apenas da graça de Deus: "E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça". O ensino paulino é perfeitamente claro. Não existe tal coisa como mérito humano aos olhos de Deus, sem importar se esse mérito é grande ou pequeno. Ninguém merece ser salvo. Ninguém pode ser salvo através das obras. Paulo exclui todas as supostas obras do "livre-arbítrio", estabelecendo em seu lugar apenas a graça divina. Não podemos atribuir a nós mesmos a menor parcela de crédito para nossa salvação; ela depende inteira­mente da graça divina.


Argumento 7: O "livre-arbítrio" não tem valor porque as obras nada têm a ver com a justiça do homem diante de Deus.
Passarei agora a considerar os argumentos de Paulo, em Romanos 4.2,3: "Porque se Abraão foi justificado por obras, tem de que se gloriar, porém não diante de Deus. Pois, que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi im­putado para justiça". Ora, Paulo não nega que Abraão era um homem justo. Mas o ponto em questão é que essa justiça não lhe outorgou a salvação. Ninguém discorda que as obras más não são aceitáveis diante de Deus. Isso é óbvio. O argumento paulino, entretanto, é que nem mesmo as boas obras nos tor­nam aceitáveis diante de Deus. Elas merecem somente a sua ira, jamais o seu favor. Em Romanos 4.4,5, Paulo contrasta a pessoa "que trabalha" com aquela que "não trabalha". A justificação, que eqüivale a aceitação diante de Deus, não é atribuída "àquele que trabalha", mas àquele que "não tra­balha" mas crê no Senhor. Não há posição intermediária.


Argumento 8: Um punhado de refutações.
Preciso mencionar, de passagem, mais alguns argumentos contra o "livre-arbítrio". Mas me referirei a eles apenas de modo breve, embora cada um deles, de per si, pudesse destruir completamente a idéia do "livre-arbítrio".
Por exemplo, a fonte da graça mediante a qual somos salvos é o propósito eterno de Deus. Isso sem dúvida anula a sugestão de que Deus é gracioso para conosco por causa de alguma coisa que possamos fazer.
Um outro argumento alicerça-se sobre o fato que Deus prometeu a salvação por meio da graça (a Abraão), antes mesmo do Senhor haver dado a lei. Paulo argumenta, em Romanos 4.13-15 e Gaiatas 3.15-21, que se somos salvos mediante a observância da lei, através do "livre-arbítrio", isso significaria que a promessa da salvação pela graça foi cancelada. E a fé, igualmente, perderia o seu valor.
Paulo também nos diz que a lei pode apenas revelar o pecado, sendo incapaz de removê-lo. Visto que o "livre--arbítrio" só pode operar com base na observância da lei, não pode haver retidão aceitável diante de Deus obtida pelo "livre-arbítrio".
Em último lugar, estamos todos debaixo da conde­nação divina, em face da pecaminosa desobediência de Adão. Estamos todos sujeitos a essa condenação, desde nosso nas­cimento, incluindo aqueles que são possuidores do "livre-arbítrio" — se pessoas assim existem! De que outra forma então poderia o "livre- arbítrio" nos ajudar, senão a pecar e a merecer a condenação?
Eu poderia ter deixado de lado esses argumentos, apresentando tão-somente um comentário geral sobre os escritos de Paulo. Todavia, quis demonstrar quão ignorantes mentalmente são os meus oponentes, por deixarem de per­ceber com clareza essas simples questões. Deixo que meditem sozinhos a respeito desses argumentos.


Argumento 9: Paulo é absolutamente claro ao refutar o "livre-arbítrio".
Os argumentos usados por Paulo são tão claros que é de admirar que alguém possa compreendê-los mal. Diz ele: "...todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer..." Estou admirado do fato que certas pessoas afirmam: "Algumas pessoas não se extraviaram, não se fizeram inúteis, não são más e nem pecadoras. Há alguma coisa no homem que o inclina para o bem". Ora, Paulo não fez essas declarações em apenas algumas passagens isoladas. Algumas vezes ele as fez em termos positivos, em outras vezes, em termos negativos, usando palavras diretas ou utilizando contrastes. O sentido literal de suas palavras, todo o contexto e o escopo inteiro de seu argumento afunila-se neste pensamento: à parte da fé em Cristo nada existe senão pecado e condenação. Meus oponentes estão derrotados, ainda que não queiram se ren­der! Porém, não está ao meu alcance convencê-los disso. Deixo isso à operação do Espírito Santo.


Argumento 10: O estado do homem sem o Espírito de Deus mostra que o "livre-arbítrio" nada pode fazer de natureza espiritual.
No trecho de Romanos 8.5, Paulo divide a humanidade em duas categorias — aqueles que são da "carne" (ou da natureza pecaminosa) e aqueles que são do "Espírito" (ver também João 3.6). Isso só pode significar que aqueles que não têm o Espírito estão na carne e continuam presos à uma natureza pecaminosa. Paulo insiste que "...se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dEle" (Rm 8.9). Isso significa, obviamente, que aqueles que estão sem o Espírito pertencem a Satanás. O "livre-arbítrio" não os tem beneficiado muito! Paulo afirma que "...os que estão na carne não podem agradar a Deus" (Rm 8.8). Ele diz que "...o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar" (Rm 8.7). É impossível que tais pessoas possam fazer qualquer esforço, por conta própria, para agradar a Deus.
Um homem de nome Orígenes sugeriu que cada pessoa tem uma "alma" dotada da capacidade de voltar-se para a "carne" ou para o "Espírito". Mas isso é apenas produto de sua imaginação. Ele sonhou com tal idéia! Ele não tinha qualquer prova para o que afirmava. Na verdade, não há posição intermediária. Tudo que não provém do Espírito é carnal; e as melhores atividades da carne são hostis a Deus. Trata-se do mesmo ensinamento ministrado por Cristo, em Mateus 7.18, de que uma árvore má não pode produzir bom fruto. E também está em harmonia com a dupla declaração de Paulo — "O justo viverá por fé" (Rm 1.17), e "tudo o que não provém de fé é pecado" (Rm 14.23). Aqueles que não têm fé não estão justificados; e aqueles que não estão justificados são pecadores, nos quais qualquer suposto "livre-arbítrio" só pode produzir o mal. Portanto, o "livre--arbítrio" nada é senão um escravo do pecado, da morte e de Satanás. Tal "liberdade", enfim, não é liberdade alguma.


Argumento 11: Aqueles que chegam a conhecer a Cristo não pensavam previamente sobre Cristo, nem O buscavam, nem se prepararam para conhecê-Lo.
Em Romanos 10.20, Paulo cita de Isaías 65.1: "Fui buscado dos que não perguntavam por mim; fui achado daqueles que não me buscavam; a um povo que não se chamava do meu nome eu disse: Eis-me aqui, eis-me aqui". Paulo reconhecia, por sua própria experiência, que ele não buscara a graça de Deus, mas a recebera apesar de sua furiosa cólera contra ela. Diz Paulo, em Romanos 9.30,31, que os judeus, que envidavam grandes esforços para observar a lei, não foram salvos por esses esforços, mas que os gentios, que eram totalmente ímpios, foram alvos da misericórdia de Deus. Isso demonstra claramente que todos os esforços do "livre--arbítrio" do homem são inúteis para a sua salvação. O zelo dos judeus não os conduziu a parte alguma, ao passo que os ímpios gentios receberam a salvação. A graça é gratuita­mente ofertada a quem não a merece, nem é digno; não é conquistada por qualquer esforço que o melhor e mais justo dentre os homens tenha tentado empreender.


Argumento 12: A salvação para o mundo pecaminoso é pela graça de Cristo, exclusivamente mediante a fé.
Voltemo-nos agora para João, que também escreveu com eloqüência contra o "livre-arbítrio". Diz ele, em João 1.5: "A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela". E, em João 1.10,11: "Estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o rece­beram". Por "mundo", João dá a entender a humanidade inteira. Visto que o "livre-arbítrio" seria umas das mais ex­celentes faculdades do homem, deve ser incluído em qualquer coisa em que João diz acerca do "mundo". Por conseguinte, de acordo com esses textos, o "livre-arbítrio" não reconhece a luz da verdade, mas antes, odeia a Cristo e ao seu povo. Muitas outras passagens, como João 7.7; 8.23; 14.7; 15.19; e 1 João 2.16; 5.19, proclamam que o "mundo" (o que inclui, especialmente, o "livre-arbítrio") está debaixo do controle de Satanás.
O "mundo" inclui tudo quanto não foi separado para Deus por meio do Espírito Santo. Ora, se tivesse havido alguém neste mundo que, por meio de seu "livre-arbítrio", tivesse chegado a conhecer a verdade e que, por intermédio do "livre-arbítrio", não tivesse odiado a Cristo, então João teria alterado o que escreveu. Entretanto, ele não o fez. Torna-se evidente, portanto, que o "livre-arbítrio" é tão culpado quanto o "mundo". Em João 1.12,13, o mesmo apóstolo prossegue: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus". As palavras "não nasceram do sangue" significam que é inútil alguém depender de sua origem familiar ou do local do seu nascimento. As palavras "nem da vontade da carne" apontam para a insensatez de se depender das obras da lei. E as palavras "nem da vontade do homem" mostram que nenhum esforço humano pode conseguir tornar alguém aceitável a Deus.
Se é que o "livre-arbítrio" tem alguma utilidade, então João não deveria ter rejeitado a "vontade do homem", por­quanto, de outro modo, estaria em perigo conforme Isaías 5.20: "Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal". Não há margem para dúvida de que a origem familiar é inútil para que alguém, através dela, venha a obter a salvação, porque em Romanos 9.8 Paulo escreve: "Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa".
Além disso, João também afirma, em João 1.16: "Por­que todos nós temos recebido da sua plenitude, e graça sobre graça". Isso posto, recebemos bênçãos espirituais exclusiva­mente através da graça derivada de Outrem, e não através de nossos próprios esforços. Duas idéias contrárias não po­dem ser ambas verdadeiras. É impossível que a graça divina seja tão sem valor que qualquer um, em qualquer lugar, seja capaz de obtê-la, ao mesmo tempo que essa graça é tão valiosa que só podemos recebê-la através dos méritos de um único homem, Jesus Cristo.
Como eu gostaria que os meus opositores percebessem que quando advogam a causa do "livre-arbítrio", estão negando a Cristo. Se podemos obter graça divina mediante o nosso "livre-arbítrio", então não temos necessidade de Cristo. E, se temos a Cristo, não precisamos do "livre--arbítrio". Aqueles que defendem o "livre-arbítrio" atestam sua negação a Cristo por meio de suas ações, porquanto alguns deles chegam ao extremo de apelar para a intercessão de Maria e de "santos", não dependendo de Cristo como o único mediador entre Deus e o homem. Todos esses têm abandonado a Cristo em sua obra como mediador e gracioso salvador, considerando os méritos de Cristo de menor valor do que seus próprios esforços.


Argumento 13: O caso de Nicodemos, no terceiro capítulo de João, opõe-se ao "livre-arbítrio".
Consideremos as virtudes de Nicodemos (Jo 3.1,2). Ele confessa que Cristo era idôneo e que viera da parte de Deus. Faz alusão aos milagres realizados por Cristo e procura-O a fim de ouvir algo de sua própria boca. Porém, ao ouvir falar sobre o novo nascimento (Jo 3.3-8), porventura Nico­demos admite que era isso o que ele vinha buscando? Não! Ele ficou atônito e confuso, repelindo a idéia, a princípio, como uma impossibilidade (Jo 3.9). Porventura os maiores filósofos chegaram a mencionar o novo nascimento? Eles nem ao menos podiam buscar por aquelas realidades perten­centes à salvação antes da chegada do evangelho. Ora, quando admitem isso, estão admitindo que o seu "livre-arbítrio" é ignorante e incapaz! Por certo, aqueles que ensinam o "livre-arbítrio" estão loucos; porém não se calarão nem darão glórias a Deus.


Argumento 14: O "livre-arbítrio" não tem utilidade, pois a salvação vem somente por meio de Cristo.
Torna-se claro, em João 14.6, onde se lê que Jesus Cristo é o "caminho, e a verdade, e a vida", que a salvação só pode ser encontrada em sua pessoa. Sendo essa a verdade, tudo quanto está fora de Cristo só pode ser trevas, falsidade e morte. Qual necessidade haveria da vinda de Cristo a este mundo, se os homens, naturalmente, pudessem compreender o caminho de Deus, entender a verdade de Deus e compar­tilhar da vida de Deus?
Nossos opositores dizem que os homens perversos possuem "livre-arbítrio", embora abusem dele. Se isso fosse realmente assim, então haveria algo de bom no pior dos homens. E se isso fosse realmente verdade, então Deus seria injusto ao condená-los. Entretanto, João diz que aqueles que não crêem em Jesus Cristo já estão condenados (Jo 3.18). Todavia, se os homens fossem possuidores dessa coisa boa chamada "livre-arbítrio", então João deveria ter dito que os homens só estão condenados por causa de sua parte má, e não devido àquela boa parte neles existente. As Escrituras dizem: "...o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus" (Jo 3.36). Sem dúvida está em pauta todo o homem. Pois, se assim não fosse, então haveria uma parte no homem capaz de impedi-lo de ser condenado, e ele poderia continuar pe­cando sem o menor temor, firmado no conhecimento que não poderia ser condenado.
Também lemos em João 3.27 que "o homem não pode receber cousa alguma se do céu não lhe for dada". Isso refere-se especialmente a capacidade da pessoa cumprir a vontade de Deus. Somente aquilo que vem do alto pode ajudar um homem a cumprir a vontade do Senhor. Mas o "livre--arbítrio" não vem do alto, o que significa que o "livre-arbítrio" é inútil.
Em João 3.31, diz ainda o mesmo apóstolo: ".. .quem vem da terra é terreno e fala da terra; quem veio do céu está acima de todos". Ora, por certo o "livre-arbítrio" não tem origem celestial. Pertence à terra, não lhe havendo outra possibilidade. E, assim sendo, isso só pode significar que o "livre-arbítrio" nada tem a ver com as realidades celes­tiais; cogita somente das coisas terrenas. O Senhor Jesus afirma, em João 8.23: "Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, eu deste mundo não sou". Se essa afirmativa de Jesus quisesse dizer apenas que os corpos de seus ouvintes eram terrenos, tal declaração seria desne­cessária, pois eles já sabiam disso. O que Jesus quis dizer é que aos seus ouvintes faltava, de modo absoluto, qualquer poder espiritual, e que este só poderia ser recebido de Deus.


Argumento 15: O homem é incapaz de crer no evangelho, por isso todos os seus esforços não podem salvá-lo.
Na passagem de João 6.44, Jesus Cristo diz: "Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer". Isso não deixa qualquer espaço para o "livre-arbítrio". E o Senhor Jesus passou a explicar como alguém é trazido pelo Pai: "Portanto, todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e aprendido, esse vem a mim" (v. 45). A vontade humana, por si mesma, é incapaz de fazer qualquer coisa para vir a Cristo em busca de salvação. A própria mensagem do evangelho é ouvida em vão, a menos que o próprio Pai fale ao coração e traga a pessoa a Cristo. Erasmo pretende suavizar o sentido claro desse texto ao comparar os homens a ovelhas, que atendem ao pastor quando este lhes estende o cajado. Argumenta que nos homens há alguma coisa que responde ao chamado do evangelho. Porém isso não acontece, porque quando Deus exibe o dom de seu próprio Filho a homens ímpios, estes não reagem favoravelmente antes que Ele opere em seus corações.
De fato, sem a operação interna do Pai, os homens inclinam-se mais a odiar e perseguir ao Filho, do que a segui-Lo. Entretanto, quando o Pai mostra aos homens quão ma­ravilhoso é seu Filho, àqueles a quem tem dado entendimento espiritual, eles são atraídos a Cristo. Essas pessoas já são "ovelhas" e conhecem a voz do pastor!



Argumento 16: A incredulidade universal prova que o "livre-arbítrio" é falso.
Em João 16.8, Jesus afirma que o Espírito Santo viria "para convencer o mundo do pecado..." E no versículo seguinte, Ele explica que o pecado consiste no fato que os homens "não crêem em mim''. Ora, esse pecado de incredulidade não se acha na pele ou nos cabelos, mas na mente e na vontade. Todos os homens, sem exceção, são tão ignorantes do fato de sua culpa de incredulidade quanto ignoram o próprio Jesus Cristo. A culpa da incredulidade precisa lhes ser revelada pelo Espírito Santo. Portanto, tudo quanto existe no homem, incluindo o "livre-arbítrio", está condenado aos olhos de Deus, contribuindo apenas para aumentar a culpa acerca da qual ele é ignorante, enquanto Deus não a revelar. A totali­dade das Escrituras proclama Cristo como o único meio de salvação. Todo aquele que estiver fora de Cristo está debaixo do poder de Satanás, do pecado, da morte e da ira divina. Somente Cristo pode resgatar os homens do reino de Satanás. Não somos libertos por qualquer poder que em nós mesmos exista, mas tão-somente pela graça de Deus.


Argumento 17: O poder da carne, mesmo em verdadeiros crentes, mostra a falsidade do "livre-arbítrio".
Por alguma razão, Erasmo, você ignorou os meus argumentos baseados em Romanos 7 e em Gaiatas 5. Esses dois capítulos mostram-nos que até mesmo nos verdadeiros crentes a força da "carne" é tanta que eles não podem fazer aquilo que sabem que devem e querem fazer. A natureza humana é tão má, que mesmo as pessoas que são dotadas do Espírito de
Deus, não somente falham em fazer o que é direito, como até mesmo lutam contra isso. Portanto, que possibilidade há de que aqueles que são destituídos do novo nascimento venham a praticar o bem? Conforme diz Paulo, em Romanos 8.7: " ...o pendor da carne é inimizade contra Deus". Eu gostaria de conhecer o homem que é capaz de derrubar por terra esse argumento!


Argumento 18: Saber que a salvação não depende do "livre-arbítrio" pode ser muito reconfortante.
Confesso que eu não gostaria de possuir "livre-arbítrio" ainda que o mesmo me fosse concedido! Se a minha salvação fosse deixada ao meu encargo, eu não conseguiria enfrentar vitoriosamente todos os perigos, dificuldades e demônios contra os quais teria de lutar. Porém, mesmo que não hou­vesse inimigos a combater, eu jamais poderia ter a certeza do sucesso. Eu jamais poderia ter a certeza de haver agradado a Deus, ou se haveria ainda mais alguma coisa que precisaria fazer. Posso provar isso mediante a minha própria dolorosa experiência de muitos anos. Porém, a minha salvação está nas mãos de Deus, não nas minhas. Ele será fiel à sua pro­messa de salvar-me, não com base no que eu faço, mas de conformidade com a sua grande misericórdia. Deus não mente, e não permitirá que o meu adversário, o diabo, me arranque de suas mãos. Por meio do "livre-arbítrio", nin­guém poderá ser salvo. Mas, por meio da "livre graça", muitos serão salvos. E não somente isso, mas também alegro--me por saber que, como um cristão, agrado a Deus, não por causa daquilo que faço, mas por causa de sua graça. Se tra­balho muito pouco ou errado demais, graciosamente Ele me perdoará e me fará melhorar. Essa é a glória de todo cristão.

Argumento 19: A honra de Deus não pode ser maculada.
Talvez alguém fique preocupado, pensando que é difícil defender a honra de Deus em meio a tudo isso. E talvez diga: "Afinal de contas, Deus condena aqueles que não podem evitar de ser pecaminosos, e que são forçados a per­manecer dessa maneira porque Ele não os escolheu para a salvação". Como Paulo diz: "...éramos por natureza filhos da ira, como também os demais" (Ef 2.3). Porém, você poderá ver essas questões por um outro ângulo. Deus deveria ser reverenciado e respeitado por ser misericordioso para todos quantos Ele justifica e salva, embora sejam totalmente indignos. Sabemos que Deus é divino. Ele também é sábio e justo. A sua justiça não é da mesma categoria que a justiça humana. Ela está acima de nosso poder de apreensão plena, conforme Paulo exclama, em Romanos 11.33: "Ó profun­didade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos!" Se concordamos que a natureza, o poder, a sabedoria e o conhecimento de Deus estão muito acima dos nossos, então também deveríamos acreditar que a sua justiça é maior e melhor do que a nossa. Ele nos fez a promessa de que quando chegar a revelar para nós a sua glória, então veremos claramente aquilo no que agora de­vemos acreditar — que Ele é justo, sempre o foi e sempre o será.
Eis um outro exemplo. Se você usar da razão humana para considerar a maneira como Deus governa os aconteci­mentos do mundo, será forçado a dizer ou que Deus não existe, ou que Deus é injusto. Os ímpios prosperam e os piedosos sofrem (Jó 12.6 e SI 73.12), e isso parece ser in­justo. Por esse motivo, muitos homens negam a existência de Deus e dizem que as coisas acontecem impelidas pelo acaso. A resposta que damos a essa questão é que há uma vida após a vida presente, e que tudo quanto não tiver sido castigado e corrigido nesta vida, será castigado e corrigido na vida futura. A vida terrena nada mais é que uma prepara­ção para ou o começo da vida que virá. Esse problema tem sido debatido por toda a História, mas a solução não tem sido encontrada, exceto pela crença no evangelho, conforme ele se acha nas páginas da Bíblia. Três raios de luz brilham sobre essa questão: o raio da natureza, o da graça divina e o da glória celestial. Mediante o raio de luz da natureza, Deus parece ser injusto, porquanto os piedosos sofrem e os ímpios prosperam. O raio de luz da graça divina ajuda-nos a compreender melhor as coisas, embora ainda não explique como Deus pode condenar alguém que, por suas próprias forças, nada pode fazer senão pecar e ser culpado. Somente o raio de luz da glória celeste explicará isso plenamente, naquele dia vindouro, quando Deus revelar a Si mesmo como inteiramente justo, embora os seus juízos ultrapassem a nossa limitada compreensão de seres humanos. Um homem pie­doso crê que Deus conhece de antemão e preordena todas as coisas, e que nada acontece senão pela sua soberana vontade. Nenhum homem, ou anjo, ou qualquer outra criatura, em vista desses fatos, é dotado de "livre-arbítrio". Satanás é o príncipe deste mundo e conserva cativos a todos os homens, a menos que eles sejam libertos pelo poder do Espírito Santo.













Capítulo Dois

O Que Erasmo Ensinava

Argumento 1: Definição de Erasmo do "livre-arbítrio".

Argumento 2: Argumento de Erasmo baseado em um livro apócrifo

Argumento 3: Três pontos de vista de Erasmo a respeito do "livre-arbítrio"

Argumento 4: Voltando ao argumento de Erasmo baseado em Eclesiástico 15.14-18

Argumento 5: Exame posterior do uso que Erasmo fez de Eclesiástico 15.14-18

Argumento 6: Os argumentos de Erasmo devem significar que a vontade do homem é completamente livre

Argumento 7: Gênesis 4.7 — outro texto que prova que receber um mandamento não significa ter a capacidade de obedecê-lo

Argumento 8: Deuteronômio 30.19 — a lei é designada para nos dar conhecimento do pecado.

Argumento 9: Confusão de Erasmo acerca da lei e do evangelho

Argumento 10: A vontade revelada de Deus e a vontade secreta de Deus

Argumento 11: A obrigação não é evidência de capacidade para obedecer

Argumento 12: O homem não deve intrometer-se com a vontade secreta de Deus

Argumento 13: A lei mostra a fraqueza humana e o poder salvador de Deus

Argumento 14: São dadas instruções no Novo Testamento para guiar aqueles que são justificados.

Argumento 15: A base para o galardão do crente é a promessa de Deus e não o mérito do homem

Argumento 16: A soberania de Deus não anula a nossa responsabilidade






Argumento 1: Definição de Erasmo do "livre-arbítrio".
Para ser justo, terei de citar a sua própria definição de "livre--arbítrio". Você diz: "Compreendo o livre-arbítrio como o poder da vontade humana mediante o qual uma pessoa pode aplicar ou afastar-se das coisas que conduzem à eterna salvação".
Você pode realmente chamar isso de definição? Uma definição precisa ser clara, e cada aspecto dessa declaração precisa ser explicado para tornar-se claro. Além disso, você começa definindo uma coisa, mas termina definindo algo inteiramente diferente. Quero dizer que somente Deus tem a liberdade de vontade que você descreve e ainda supõe que pertence aos homens. Entretanto, um homem é como um escravo, cuja única liberdade consiste em obedecer a seu senhor. Os seres humanos só agem de acordo com as de­terminações de Deus. Será isso "liberdade de arbítrio" como você a descreve?
Por conseguinte, terei de considerar essa suposta definição em seus vários aspectos. Alguns deles são sufi­cientemente claros, mas tenho de realçar outros aspectos, antes que possa mostrar onde eles erram. Eles parecem ter medo da luz, como se fossem culpados de alguma coisa. Começarei supondo que o "poder da vontade humana", a respeito do qual você fala, seja o de aceitar ou rejeitar alguma coisa, o poder de aprovar ou desaprovar. Essa é realmente a função da vontade humana. Mas, em seguida, você acres­centa : "... mediante o qual uma pessoa pode aplicar-se O que você está fazendo é separar um homem de sua vontade. Está dando à pessoa o poder de dirigir a sua vontade. Entre­tanto, a vontade de um homem faz parte dele — é a parte dele que faz essas escolhas. Obviamente, separar um homem de sua vontade e conferir-lhe poder sobre ela, é absurdo! Se, porventura, entendi mal a questão, a culpa é sua, Erasmo, por não haver escrito com mais clareza!
Em seguida, quais são as coisas que "conduzem à eterna salvação"? Elas têm de ser as palavras e as obras de Deus. Nenhuma outra coisa pode conduzir-nos à salvação eterna. Aliás, a mente humana é incapaz de apreender o significado da salvação. Escreveu Paulo: "Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam" (1 Co 2.9). Paulo passa então a dizer como podemos tomar conhecimento dessas realidades: "Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito..." (1 Co 2.10). Isso sem dúvida significa que sem o Espírito Santo jamais tomaríamos conhecimento dessa salvação, e assim sendo, não poderíamos nos dedicar a buscá-la.
Alguns dos homens mais bem instruídos deste mundo têm considerado as verdades espirituais como bobagem. De fato, quanto mais brilhantes têm sido as suas mentes, mais ridículas lhes parecem ser as verdades espirituais. Os homens só podem chegar a reconhecer as realidades dos valores espirituais, em seus corações, quando o Espírito Santo os ilumina.
Em seguida, você assevera que o "livre-arbítrio" é a capacidade que a vontade humana tem, por si mesma, de decidir se aceita ou não a palavra e as obras de Deus. Isso eqüivale a fazer com que a vontade humana seja capaz de escolher entre o céu ou o inferno. Isso significa que não há espaço para a atuação do Espírito Santo ou para a graça divina. Isso põe a vontade humana no mesmo nível de Deus.
Os pelagianos também fizeram isso. Mas você os ultra­passa! Eles distinguiam em duas partes o "livre-arbítrio" — o poder de compreender a diferença entre as coisas e o poder de escolher entre elas. Porém, para você o "livre--arbítrio" tem o poder de escolher coisas eternas, embora seja totalmente incapaz de entendê-las. Desse modo, você criou um "meio livre-arbítrio".
Além disso, você contradiz a si mesmo, porquanto uma vez afirmou que a "vontade humana nada pode fazer sem a graça divina". No entanto, quando você chegou a escrever uma definição do "livre-arbítrio", concedeu total liberdade para a vontade humana. Você é um homem muito estranho!
Prefiro até mesmo o ensinamento de alguns dos antigos filósofos aos seus. Eles diziam que um homem entregue a si mesmo só faria o que é errado. O homem só poderia escolher o bem com a ajuda da graça divina. Eles diziam que os homens são livres para decair, mas que precisam de ajuda para elevarem-se! Porém, é motivo de riso chamar a isso de "livre-arbítrio". Com base em tais conceitos, eu poderia afirmar que uma pedra tem "livre-arbítrio", pois só pode cair, a menos que seja erguida por alguém! O ensino daqueles filósofos, porém, ainda é melhor do que o seu. A sua pedra, Erasmo, pode escolher se sobe ou desce!

Argumento 2: Argumento de Erasmo baseado em um livro apócrifo.
Você alicerça a sua defesa do "livre-arbítrio" no livro de Eclesiástico 15.14-18: "Deus criou o homem desde o prin­cípio, e o deixou na mão do seu conselho". O escritor desse livro apócrifo ainda adiciona as seguintes palavras sobre os mandamentos e preceitos de Deus: "Se tu quiseres observar estes mandamentos, e guardar sempre com fidelidade o que é do agrado de Deus, eles te conservarão. Ele pôs diante de ti a água e o fogo: lança a tua mão ao que quiseres. Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal: o que lhe agradar, isso lhe será dado".
Eu poderia eliminar esse suposto texto de prova asseverando que o livro de Eclesiástico nunca foi incluído pelos judeus como porção integrante do Antigo Testamento; porém, basta-me dizer que você mesmo afirmou que esse livro é "obscuro e ambíguo". Seria mister uma eternidade, para você ou para qualquer outro, apresentar uma passagem que diga claramente no que consiste o "livre-arbítrio".

Argumento 3: Três pontos de vista de Erasmo a respeito do "livre-arbítrio".
Você apresenta três pontos de vista acerca de um mesmo "livre-arbítrio"! Examinemo-los! O primeiro é a idéia que o homem não pode querer fazer o bem; ele não pode tomar tal iniciativa, progredir nessa direção ou consumar o bem, sem a graça especial. Você chama esse ponto de vista de "rígido, mas suficientemente provável".
O segundo ponto de vista, que você reputa "ainda mais rígido'', é o de que o ' 'livre-arbítrio" só pode conduzir o homem ao pecado, e que somente a graça divina pode conduzi-lo à bondade.
O terceiro ponto de vista, que você considera como "o mais rígido de todos", é que o "livre-arbítrio" não tem qualquer sentido, e que Deus é a causa tanto do bem quanto do mal que em nós existe.
Você se declara disposto a aceitar o primeiro desses três pontos de vista, porquanto permite que o homem faça algum esforço. E afirma que opõe-se aos dois outros. Você parece não saber o que está dizendo! Esses não são, real­mente, três pontos de vista diferentes. São sempre um único ponto de vista, expresso mediante diferentes palavras, em ocasiões diferentes por seus oponentes. Sua definição de "livre-arbítrio" em coisa alguma assemelha-se ao primeiro ponto de vista, o qual você declara aceitável. A sua definição assegura que o "livre-arbítrio" pode fazer tanto o bem quanto o mal. No entanto, o ponto de vista que você aceita afirma que a vontade humana não pode escolher o bem sem a ajuda da graça divina. Assim, você já conta com duas vontades humanas em desacordo. Ao aceitar o primeiro ponto, você concorda que o "livre-arbítrio" não pode praticar o bem. Mas você mesmo dissera, um pouco antes: "A vontade humana é tão maligna que perdeu a sua liberdade, sendo forçada a servir ao pecado, não podendo retornar a um estado melhor". Não obstante, quando eu digo exatamente a mesma coisa, você diz: "Nunca se ouviu coisa tão absurda". O que você escreve significa que tentar ser bom, está e ao mesmo tempo não está no poder do "livre-arbítrio". Se isso não é um absurdo, eu gostaria de saber o que é!
As suas afirmativas são de tal modo contrárias umas às outras que não há qualquer possibilidade delas permancerem coesas. Não há meio termo entre "ser capaz de fazer o bem" e "não ser capaz de fazer o bem".
No que concerne ao segundo e ao terceiro pontos de vista que você delineou, nada há neles que já não se encontre no primeiro. Todos esses três pontos de vista con­cordam plenamente uns com os outros. Você diz que se opõe ao segundo e ao terceiro, mas todos os três afirmam que a vontade humana perdeu a sua liberdade, sendo forçada a servir ao pecado, não podendo pôr o bem em prática. Ora, se isso é verdade, segue-se que quando o ser humano pra­tica algum mal, assim age porque é forçado. Ele não pode evitá-lo.

Argumento 4: Voltando ao argumento de Erasmo baseado em Eclesiástico 15.14-18.
Retornemos àquela passagem do livro apócrifo de Eclesiás­tico, a fim de compará-la com o primeiro dos três pontos de vista que acabamos de aludir. Esse ponto de vista, que você afirma ser provavelmente correto, declara que o "livre--arbítrio" não pode querer praticar o bem. No entanto, aquela passagem extraída do livro de Eclesiástico foi citada a fim de provar que "o livre-arbítrio" pode fazer algo de bom. Se­gundo a sua opinião, essa passagem deveria apoiar o primeiro ponto de vista, no entanto ela não diz nada a respeito do assunto. Seria como alguém citar uma passagem qualquer sobre Pilatos, como governador da Síria, a fim de provar que Cristo foi o Messias!
Mas para sermos justos, consideraremos o trecho de Eclesiástico 15.14-18. Esse trecho começa dizendo: "Deus criou o homem desde o princípio, e o deixou na mão do seu conselho". Até essa altura, não há qualquer referência aos mandamentos. O homem era dotado de uma vontade inteiramente livre quando o Senhor Deus o tornou senhor de todas as coisas. Mas, então lemos que Deus acrescentou seus mandamentos e preceitos: "Se tu quiseres observar estes mandamentos...". E isso também exprime uma verdade. Deus tirou o homem de sua posição de domínio, e, dali por diante, ele ficou debaixo dos mandamentos de Deus. Não era mais livre. Portanto, você pode ver que é possível com­preender essa passagem de Eclesiástico de uma maneira que concorda comigo e não com você! A minha compreensão desse trecho concorda com a totalidade das Escrituras. A sua maneira de compreendê-lo faz esse texto voltar-se contra as Escrituras em sua inteireza.

Argumento 5: Exame posterior do uso que Erasmo fez de Eclesiástico 15.14-18.
Você, Erasmo, sugere que as palavras ' 'se tu quiseres observar estes mandamentos" mostram que o homem é capaz de es­colher com liberdade. Argumentar assim é avaliar as palavras de Deus de acordo com a razão humana. Porém, eu posso provar que, mesmo de conformidade com a razão humana, as palavras "se tu quiseres observar estes mandamentos" nem sempre significam uma capacidade para obedecer. Por exemplo, os pais com freqüência dizem a seus filhos para fazerem algo, não para provarem o que eles podem fazer, mas a fim de provar que eles não podem fazer, para que aprendam a pedir ajuda.
É também assim que Deus lida conosco. Ele dá a sua lei a fim de mostrar-nos a nossa total incapacidade de observá-la. Esse é o ensinamento de Paulo em Romanos 3.20 e 5.20 e em Gaiatas 3.19,24.



Argumento 6: Os argumentos de Erasmo devem significar que a vontade do homem é completamente livre.
Há uma contradição básica em seu argumento. Por um lado, você diz que as palavras de Eclesiástico 15.14-18 ("Se tu quiseres observar estes mandamentos...") significam que o homem pode livremente escolher. Mas você também diz que o primeiro dos três possíveis pontos de vista é provavelmente verdadeiro. No entanto, esse ponto de vista afirma que o "livre-arbítrio" não pode fazer bem algum. Você não pode manter essas duas posições!
Ora, o livro de Eclesiástico não diz "se tu quiseres e tentares observar estes mandamentos", diz: "Se tu quiseres observar estes mandamentos". Por conseguinte, se o livro de Eclesiástico favorece o "livre-arbítrio", em algum sentido, deve estar em pauta uma liberdade total, não apenas parcial. Essa foi a conclusão a que chegaram os pelagianos acerca dessas palavras.
Qualquer um que deseje discordar dos pelagianos en­frentará um grande problema. Tal pessoa talvez queira apenas conceber um "livre-arbítrio" parcial, a exemplo do que você faz. O que significa que um homem é livre meramente para desejar e tentar obedecer a Deus. Os pelagianos retrucariam dizendo ou que essa passagem ensina um completo "livre--arbítrio" ou uma completa servidão da vontade. E levariam esse argumento ainda mais adiante, para o trecho que diz: "...e guardar sempre com fidelidade o que é do agrado de Deus". Como resultado disso, os pelagianos ensinavam que o homem é livre para crer. Não obstante, na Bíblia, Paulo enfaticamente argumenta contra tal idéia, ao dizer que a fé é um dom especial conferido por Deus (Ef 2.8).
Contudo, cumpre-me retornar ao meu argumento de que o livro de Eclesiástico não prega o "livre-arbítrio". Constitui um grande erro argumentar que as palavras "se tu quiseres observar estes mandamentos" devem significar "portanto, tu podes". O primeiro homem, Adão, era assistido pela graça de Deus e, no entanto, desobedeceu. Se Adão desobedeceu, o que podemos nós fazer, antes de havermos recebido qualquer graça divina? O "livre-arbítrio" é com­pletamente impotente. Se pusermos a situação de Adão ao lado do trecho de Eclesiástico 15.14-18, você verá que esse trecho, longe de manifestar-se em favor do "livre-arbítrio" é fortíssimo argumento contra tal idéia. Essa passagem, pelo contrário, ensina o nosso dever de cumprir a vontade de Deus e não a nossa capacidade de obedecer a Deus.


Argumento 7: Gênesis 4.7 — outro texto que prova que receber um mandamento não significa ter a capa­cidade de obedecê-lo.
Erasmo, você cita as palavras de Gênesis 4.7: "...eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo", para provar que maus pensamentos podem ser controlados, não levando, necessariamente, ao pecado. Uma vez mais você contradiz a si mesmo. Você já havia dito que o ponto de vista que é provavelmente ver­dadeiro é aquele que afirma que a vontade humana não pode querer o que é bom. No entanto, aqui você diz que o homem pode dominar os maus desejos, sem fazer qualquer alusão à ajuda de Cristo ou do Espírito Santo.
Esse texto bíblico, na verdade, não está ensinando nada disso. É um outro exemplo de que ao homem é mostrado o que ele deve fazer, e não o que ele pode fazer. Outro exemplo disso é o primeiro mandamento: "Não terás outros deuses diante de mim...". Os textos citados são mandamen­tos, e mandamentos não implicam a capacidade de obedecer. Pelo contrário, demonstram incapacidade de obedecer, como, por exemplo, no caso de Caim.

Argumento 8: Deuteronômio 30.19 — a lei é designada para nos dar conhecimento do pecado.
Essa é a terceira passagem que você cita a favor do "livre-arbítrio". No texto se lê: "...te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição: escolhe, pois, a vida...". Você diz: "O que poderia ser mais claro, do que dizer que o homem tem liberdade de escolha?" Entretanto, replico que você está cego! Quando Moisés disse "escolhe, pois, a vida", por­ventura o povo israelita escolheu a vida? Se eles tivessem feito essa escolha, não teria havido necessidade das operações do Espírito Santo.
Você diz: "É ridículo dizer-se a um homem, diante de dois caminhos, para ele ir pelo que lhe agrada, se apenas um dos caminhos estiver livre à sua frente". Que ilustração tola! É verdade que nós estamos diante de uma bifurcação; porém os dois caminhos — e não somente um — estão fe­chados para nós. Somos incapazes de tomar o caminho que conduz ao bem, sem a graça de Deus. E nem mesmo po­demos tomar o outro caminho, sem a permissão de Deus! Em Romanos 3.20, Paulo não diz: "Pela lei vem o pleno conhecimento da bondade", nem: "Pela lei vem o pleno conhecimento da vontade". Ele diz: "Pela lei vem o pleno conhecimento do pecado". A lei não ensina o que os homens podem fazer, mas o que os homens devem fazer.
Em seguida, você cita Deuteronômio 3 acerca de "escolher", de "desviar-se" e de "observar". Você diz que se as pessoas não têm realmente poder para fazer essas coisas, então os mandamentos são destituídos de significação. Uma vez mais, porém, todos esses mandamentos dizem o que as pessoas devem fazer e não o que podem fazer. Não são destituídos de significação. Têm por desígnio ensinar ao homem orgulhoso o quão impotente ele é. Você tenta lançar no ridículo essa posição, comparando-a a um homem que esteja amarrado, menos o seu braço esquerdo. Então lhe é dito que há um bom vinho à sua direita e veneno à sua esquerda. É-lhe então ordenado que escolha um deles. O que você está tentando provar com essa ilustração? Estará tentando provar a liberdade absoluta da vontade humana? Mas quão esquecido você é! Você já tinha dito que o "livre-arbítrio'' nada pode fazer sem a graça de Deus. Você tentou ridicularizar a minha posição com a sua ilustração, porém deixe-me expor a minha posição com uma ilustração melhor. Imaginemos um homem com ambos os braços amarrados! Esse homem jacta-se de que é livre para mover seus braços para a direita e para a esquerda. Ordena-se, então, a ele que mova um braço em uma certa direção — não a fim de divertir-se com ele, mas a fim de provar que ele é incapaz de obedecer. Nas Escrituras aprendemos que o homem não apenas está amarrado por Satanás, mas também iludido na crença de que é livre para fazer o que é direito. A lei de Moisés foi dada para mostrar aos homens que eles estão iludidos com sua liberdade imaginária.


Argumento 9: Confusão de Erasmo acerca da lei e do evangelho.
Você se vale de inúmeras passagens para provar a sua posi­ção, mas fracassa completamente em sua tentativa de mostrar a diferença entre a lei e o evangelho. Deixe-me mostrar como o evangelho é ensinado em passagens que você pensa que dizem respeito à lei. Para exemplificar, consideremos o trecho de Jeremias 15.19: "Se tu te arrependeres (voltares), eu te farei voltar e estarás diante de mim..." e Zacarias 1.3: "Tornai-vos (voltai-vos) para mim, diz o Senhor dos Exércitos, e eu me tornarei para vós outros..." Porventura "voltar-se" prova que o homem tem a capacidade de voltar, assim como "amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de toda a tua força" (Dt 6.5), prova que ele tem capacidade para amar a Deus? Essas palavras não provam que os homens possam voltar-se para Deus contando apenas com as suas próprias forças. Mas, quando os homens ficam sabendo o que devem fazer, então eles perguntarão aonde poderão encontrar a capacidade para obedecer. As palavras "tornai-vos para mim" não significam "tentai tornar-vos para mim". Você diz que a graça divina é posta à disposição quando os homens tentam voltar-se para Deus. Mas isso faria também a segunda parte desse versículo significar "eu tentarei tornar-me para vós"! Isso seria es­pantoso! Talvez a graça possa também estar à disposição do Senhor!
Longe de nós estejam argumentos vazios! A palavra "tornar" é utilizada nas Escrituras tanto em sentido "legal" como em sentido "evangélico". Quando ela é usada em sentido legal, trata-se de um mandamento obrigatório, não apenas uma tentativa do homem de obedecer, mas uma com­pleta mudança em sua vida (Jr 4.1; 25.5 e 35.15). E quando a palavra "tornar" é empregada em seu sentido evangélico, ela é proferida por Deus como um consolo e uma promessa, quando coisa alguma é exigida de nós, mas antes, quando a graça de Deus nos é oferecida (SI 14.7; 116.7 e 126.1). Zacarias exibe-nos tanto a mensagem da lei quanto a men­sagem da graça. A totalidade da lei é resumida nas palavras "tornai-vos para mim"; a totalidade da graça, nas palavras "e eu me tornarei para vós outros".
Você interpreta de igual maneira Ezequiel 18.23: ' 'Acaso tenho eu prazer na morte do perverso? diz o Senhor Deus; não desejo eu antes que ele se converta dos seus ca­minhos, e viva?" Uma vez mais, você interpreta as palavras "que ele se converta" como a capacidade de fazê-lo. Você faz desse trecho lei, ao invés de evangelho. Faz dele uma ordem para que nós não pequemos. Isso é lei. No entanto, o Senhor declara: "Porque não tenho prazer na morte de ninguém..." (Ez 18.32), e alude claramente ao castigo do pecado que o pecador merece e teme. Deus está dando a tal pessoa esperança do perdão e a salvação. As palavras da lei pressionam pesadamente aqueles que não sentem nem reconhecem os seus pecados. A esses é mostrado o que devem fazer. Entretanto, o evangelho é dirigido àqueles que são afligidos pelo senso de pecado e são tentados a cair no desespero.
Portanto, essas palavras em Ezequiel, "não tenho prazer na morte de ninguém", longe de provarem o "livre--arbítrio", provam exatamente o contrário. Elas mostram quão impotentes somos à parte das promessas de Deus. De fato, vamo-nos tornando cada vez piores, enquanto a graça de Deus não nos é dada. Essas palavras de misericórdia são necessárias para salvar pecadores (a menos que você imagine que Deus diz essas coisas só por dizer). Ninguém aceitará essa promessa divina senão aquele a quem a lei tiver mostrado seu pecado. Aqueles que ainda não sentiram o poder da lei de Deus e não temem a morte eterna e o julgamento, não têm interesse pelas promessas misericordiosas de Deus.


Argumento 10: A vontade revelada de Deus e a vontade secreta de Deus.
Na passagem do livro de Ezequiel que acabamos de consi­derar, o profeta não trata, de forma alguma, da questão por que algumas pessoas são convictas do pecado através da lei e outras não. Também não trata de por que algumas pessoas recebem a graça de Deus e outras não.
Precisamos estabelecer clara distinção entre a vontade revelada de Deus e a vontade secreta de Deus. Deus, de acordo com a sua vontade secreta, planejou que aqueles aos quais escolheu receberiam sua misericórdia. Não nos compete inquirir a questão, mas adorar reverentemente ao Senhor. Devemo-nos interessar por aquilo que Deus nos tem revelado e não por aquilo que Ele reserva para Si mesmo.
Aplicados ao nosso texto, esses pensamentos signifi­cam que Deus, oculto em sua majestade, não lamenta pela morte do pecador. Mas Deus, como Ele é revelado aos homens, lamenta sobre a morte que vê em seu povo, e tem agido de modo tal que pecado e morte possam ser eliminados. É impossível sermos orientados pela vontade secreta de Deus, pois não sabemos no que ela consiste. Basta-nos saber que a vontade secreta de Deus existe, de modo que venhamos a temê-Lo e adorá-Lo.
Se estamos falando de Deus, da maneira como Ele nos é revelado, é absolutamente certo dizer que a culpa é nossa se perecermos, porque, na verdade, a falha encontra-se na vontade do homem (Mt 23.27). Mas, por que Deus não remove essa falha de cada ser humano, ou por que nos con­sidera responsáveis pelo erro que não podemos evitar, não nos compete indagar a respeito. E mesmo que indagássemos, não obteríamos resposta, conforme diz Paulo, em Romanos 9.20: "Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?"


Argumento 11: A obrigação não é evidência de capacidade para obedecer.
Você prossegue com o argumento: "Se não está dentro da capacidade de cada indivíduo obedecer ao que é ordenado, então todo encorajamento nas Escrituras, todas as promessas, ameaças, repreensões, bênçãos, maldições e dúzias de exem­plos são inúteis". Porém, conforme já tenho esclarecido por várias vezes, as passagens bíblicas que impõem o senso de dever não podem ser utilizadas para provar a existência de um "livre-arbítrio", conforme você sugere.
Uma das últimas passagens que você emprega em respaldo à sua posição é Deuteronômio 30.11-14, que diz: "Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não é de­masiado difícil, nem está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar, que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Pois esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires".
Você diz que essas palavras não somente mostram que nos é possível cumprir aquilo que elas nos ordenam, mas que é algo tão fácil quanto cair de uma pinguela! Porém, se realmente esse é o sentido da passagem, então temos de concluir que Jesus Cristo foi um tolo por desperdiçar seu tempo. Ele derramou o seu sangue, a fim de nos garantir o Espírito Santo, embora, o tempo todo, não tivéssemos qual­quer necessidade dEle, porquanto todos podemos fazer, fácil e naturalmente, aquilo que Deus requer de nós. Mas se esse é o caso, como é que isso se coaduna com o seu próprio argumento de que o ponto de vista que o "livre-arbítrio" não pode fazer o bem sem a graça divina é, provavelmente, verdadeiro? Você já se esqueceu de que escreveu isso?
Portanto, quase nem preciso referir-me à explicação de Paulo sobre Deuteronômio 30.11-14, em Romanos 10.8. Pre­ciso apenas examinar essa passagem, para ver que nenhuma palavra é dita a respeito do "livre-arbítrio". Por exemplo, o que significam para você expressões como "não é demasiado difícil", "nem está longe de ti", "nos céus" e "além do mar"? Elas tão-somente aludem a coisas que devemos tentar fazer. Mas nada dizem quanto à nossa capacidade de fazer essas coisas. Elas meramente referem-se à noção de distancia. Eu sei que tudo isso é uma lógica infantil, mas, que posso fazer quando me deparo com argumentos tão tolos? Como é patente, nessa passagem Moisés mostrou ser legislador fiel. Ele deixou o povo sem a desculpa de desconhecer a lei de Deus. Eles não precisavam olhar em lugar algum a fim de tomar conhecimento do que Deus exige. Eles não podiam alegar ignorância, como desculpa por não observar a lei. Eles não podiam dizer que tudo era um mistério. Tudo estava claro para que todos vissem. Então, do "livre--arbítrio" são retiradas todas as desculpas para desobedecer.
Repito que esses textos bíblicos mostram-nos somente aquilo que Deus requer. Mostram-nos o que devemos fazer, mas que não podemos fazer. Seu intuito é mostrar-nos quão impotentes e quão pecaminosos nós somos.


Argumento 12: O homem não deve intrometer-se com a vontade secreta de Deus.
Agora chegamos aos seus textos "comprobatórios" do Novo
Testamento. Você salienta o trecho de Mateus 23.37: "Jeru­salém! Jerusalém!... quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!" Você argumenta que, se tudo acontece precisamente conforme Deus deseja, então Jeru­salém poderia replicar com justa causa: "Por que desperdiças as tuas lágrimas? Se não tinhas a intenção que déssemos ouvidos aos profetas, então por que os enviaste? Por que nos consideras responsáveis, quando Tu decidiste aquilo que deveríamos fazer?"
Porém, conforme eu já disse, a nós não compete nos intrometermos na vontade secreta de Deus, pois as coisas secretas de Deus estão inteiramente fora do nosso alcance (1 Tm 6.16). Deveríamos dedicar o nosso tempo conside­rando o Deus encarnado, o Senhor Jesus Cristo, em quem Deus tornou claro para nós o que deveríamos e o que não deveríamos saber (Cl 2.3). É verdade que o Deus que se tornou carne exclamou: "...quantas vezes quis eu... e vós não o quisestes!'' Cristo veio a este mundo a fim de realizar, sofrer e oferecer a todos os homens tudo quanto é necessário à sua salvação. Mas alguns homens, endurecidos por causa da vontade secreta do Senhor, rejeitam-nO (Jo 1.5,11). O mesmo Deus encarnado, entretanto, chora e lamenta-se em face da destruição eterna dos ímpios, ainda que, em sua divina vontade, propositalmente Ele os tenha deixado perecer. Não nos cabe perguntar porquê, mas antes, nos prostrarmos admirados diante de Deus.
Neste instante alguns dirão que logo que sou empur­rado para um canto, evito enfrentar frontalmente a questão, dizendo que não devemos nos intrometer na vontade secreta de Deus. Entretanto, isso não é invenção minha. Foi dessa maneira que Paulo argumentou em Romanos 9.19,21; e Isaías, antes de Paulo (Is 58.2). É evidente que não devemos procurar sondar a vontade secreta de Deus, sobretudo quando observamos que são justamente os ímpios que são fortemente tentados a fazê-lo. Nós devemos adverti-los a ficar calados e reverentes. Se alguém quiser levar avante essa forma de inquirição, é bem-vindo a fazê-lo; porém, descobrir-se-á lutando contra Deus. Quanto a nós — ficaremos observando para ver quem vencerá!


Argumento 13: A lei mostra a fraqueza humana e o poder salvador de Deus.
Um outro trecho que você cita é Mateus 19.17: "Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos". Você indaga como é que as palavras "se queres" poderiam ter sido dirigidas a alguém cuja vontade não é livre. No entanto, você já havia concordado que o "livre-arbítrio" não pode querer nenhuma coisa boa e que, sem a graça divina, pode somente servir ao pecado. Como, então, pode querer provar que a vontade humana é inteiramente livre? Será realmente verdade que a cada vez em que dizemos a alguém "se quiseres", ou "se desejas", significa que existe a capacidade de se fazer aquilo? Suponha que digamos o seguinte: "Se você quiser comparar-se a Davi, terá de produzir salmos como os dele". Não estaríamos dizendo que isso nos seria impossível, a menos que Deus nos capacitasse para tanto? Assim, nas Escrituras encontramos expressões similares a essa, para nos mostrar o que pode ser feito no poder de Deus e o que não podemos fazer por nós mesmos. Essas expres­sões não somente mostram coisas que não podemos fazer com nossos poderes naturais, mas também revelam uma promessa do tempo em que essas coisas serão realizadas através do poder de Deus. Poderíamos exprimir o sentido das Escrituras assim: "Se chegares a manifestar a vontade de guardar os mandamentos (o que terás, não por ti mesmo, mas através de Deus, que a dá a quem Ele deseja), então, eles te preservarão".
Dessa maneira, podemos perceber que não podemos fazer nenhuma daquelas coisas que nos são ordenadas, ao mesmo tempo em que podemos fazer todas elas; pois, nossas fraquezas pertencem a nós mesmos e a nossa capacidade nos é dada através da graça de Deus.


Argumento 14: São dadas instruções no Novo Testamento para guiar aqueles que são justificados.
Você emprega um argumento alicerçado em muitas referên­cias do Novo Testamento a respeito de boas e más obras. Por exemplo: "Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós" (Mt 5.12). Você diz que, se tudo é feito porque assim Deus o deseja, não pode haver qualquer mérito nas boas obras. Isso posto, você quer que o texto signifique que o homem pode fazer, sem a ajuda divina, boas obras que merecerão recompensas no céu. Ora, vejam só! O "livre-arbítrio" tem sofrido algumas distorções, à medida em que o seu livro avança! Não somente o "livre--arbítrio" é capaz de querer e de realizar o bem, mas agora você também quer que o mesmo mereça a vida eterna! Nesse caso, que necessidade temos de Cristo ou do Espírito Santo?
Homens "espertos" podem ser cegos para com as coisas que são perfeitamente claras para as pessoas "co­muns"! Você não consegue perceber a diferença entre o Antigo e o Novo Testamento. No Antigo Testamento, há leis e ameaças cujo propósito é fazer-nos avançar para as promessas encontradas no Novo (Testamento). No Novo Testamento encontramos o evangelho, onde achamos a graça e o perdão dos pecados, que nos foram obtidos pelo Cristo crucificado. Além disso, há encorajamentos e instruções cujo intuito é despertar aqueles que forem justificados, após ha­verem recebido a graça e perdão, para que produzam o fruto do Espírito e para que carreguem ousadamente a cruz.
Você está cego para com a inteira operação regeneradora do Espírito de Deus, vendo nas Escrituras somente leis por meio das quais os homens deveriam viver. Isso é surpre­endente, em alguém que tem passado tanto tempo estudando as Escrituras. Esse texto (Mt 5.12) tem tanto a ver com o "livre-arbítrio" como a luz tem a ver com as trevas, tendo por único desígnio encorajar os apóstolos, que já estavam debaixo da "graça divina", a fim de perseverarem diante das dificuldades do mundo.


Argumento 15: A base para o galardão do crente é a promessa de Deus e não o mérito do homem.
O "galardão", referido em Mateus 5.12, é uma espécie de promessa. Uma promessa, entretanto, não prova que podemos fazer coisa alguma. Prova apenas que, se fizermos certas coisas, seremos galardoados. A questão é se realmente podemos fazer as coisas em razão das quais o galardão é dado. Alguns dizem: O prêmio é posto perante todos os que correm, assim sendo, todos podem correr e obter o prêmio! Não é essa uma lógica absurda? Poderia ser útil para alguns, se a noção do "livre- arbítrio" pudesse ser estabelecida por meio de tais argumentos!
Você procura argumentar que se Deus já decidiu tudo de antemão, então não podemos falar em galardões. Se quer dizer com isso que você não recompensaria quem trabalha com má vontade, eu estou de acordo. Porém, quando as pessoas praticam o bem ou o mal voluntariamente, então segue-se, com toda a justiça, o galardão ou a punição. Isso é verdade, mesmo quando as pessoas são incapazes de alterar a sua vontade por seus próprios esforços. Se, porém, só podemos desejar fazer o que é bom capacitados pela graça divina, daí é óbvio, que o mérito e o galardão provêem exclusivamente da graça divina.
Entretanto, não deveríamos falar sobre méritos hu­manos. Melhor é falar acerca das conseqüências daquilo que fazemos. Nada existe de bom ou de mal que não venha a receber sua devida retribuição. O inferno e o julgamento divino, certa e seguramente, esperam pelos ímpios. Da mesma forma, um reino por certo espera pelos piedosos,
porque o mesmo foi preparado para eles por seu Pai celeste (Mt 25.34). Se tentarmos fazer o bem a fim de merecer receber o reino de Deus, haveremos de fracassar, mostrando assim que somos ímpios. Os filhos de Deus fazem o bem visando a glória de Deus, não alguma recompensa.
Por conseguinte, qual é o significado daquelas pas­sagens bíblicas que prometem o reino de Deus ou ameaçam com o inferno? (Gn 15.1; 2 Cr 15.7; Jó 34.11; Rm 2.7). Elas simplesmente mostram o resultado de uma vida boa ou de uma vida má. Seu propósito é instruir e alertar. Nada dizem a respeito de mérito, mas ensinam aquilo que devemos fazer, encorajando-nos a prosseguir até ao fim (Gn 15.1; 1 Co 15.58; 16.13). É como se quiséssemos consolar alguém, dizendo que o que ele está fazendo agrada a Deus, ou como se quiséssemos advertir a alguém, dizendo que o que ele está fazendo desagrada a Deus.
Mesmo assim, você argumenta: "Por que Deus importa-se em dizer-nos essas coisas, quando todas elas já foram determinadas de antemão?" A resposta é que Deus produz em nós o seu propósito por intermédio da sua Palavra. O Senhor poderia fazer essas coisas sem a sua Palavra; to­davia, agradou-Lhe fazer de nós seus cooperadores. Portanto, Ele nos diz essas coisas em sua Palavra, a fim de envolver-nos em seu plano. Por conseguinte, vemos que Deus realiza em nós a sua vontade, e também nos apresenta a sua Palavra, com o intuito de dizer ao mundo inteiro quais os fatos a respeito dos galardões e das punições, a fim de que o seu poder e a sua glória, bem como a nossa debilidade e impiedade, sejam proclamadas por todo o mundo. E essas verdades, que tantos desprezam, serão recebidas pelos corações dos piedosos.


Argumento 16: A soberania de Deus não anula a nossa responsabilidade.
Erasmo, você alicerça seu argumento nas palavras de Mateus 7.16, que dizem: "Pelos seus frutos os conhecereis...", asseverando que a Bíblia diz que o fruto é nosso, e que, portanto, não pode o mesmo ser-nos dado por Deus através do seu Espírito. Esse é um argumento tolo! Pois, é dito que Cristo é nosso, embora O tenhamos recebido. Os nossos olhos são nossos embora não os tenhamos criado! E em seguida, você usa outro argumento, alicerçado em Lucas 23.34: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem". Você afirma que se a nossa vontade não é livre, então teria sido mais certo se Jesus tivesse desculpado os seus assassinos, por não terem eles "livre-arbítrio", e nem poderem eles agir de outra maneira. A resposta, entretanto, encontra-se nas próprias palavras de nosso Senhor: "...não sabem o que fazem". Poderia ser dito ainda mais claramente que Cristo estava afirmando que seus algozes eram incapazes de querer fazer o que é bom? Como poderiam querer fazer aquilo que desco­nheciam? Nenhuma afirmativa mais forte pode ser apresentada acerca da pobreza da vontade humana. Não somente a von­tade humana não pode fazer o bem, mas também nem ao menos reconhece quanto mal está fazendo, nem conhece no que consiste o bem!
Em seguida, você usa novamente o trecho de João 1.12: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que crêem no seu nome", e argumenta que não lhes poderia ter sido conferido o direito de tornarem-se filhos de Deus, se não houvesse liberdade da vontade. Atentemos cuidadosamente ao que diz esse versículo. João fala da completa transformação de quem, sendo filho do diabo, passa a ser um filho de Deus. Esse alguém nada/ez, foi transformado em algo! Tornamo--nos filhos de Deus através da operação de Deus, e não por qualquer atuação do "livre-arbítrio" em nós. João está nos dizendo que o evangelho da graça, que não impõe a exigência de obras, cria uma esplêndida oportunidade para todos os homens tornarem-se filhos de Deus, se vierem a crer no Senhor. Todavia, esse querer e esse crer são questões acerca das quais eles não tinham qualquer conhecimento prévio.
Muito menos ainda, eles poderiam fazer essas coisas con­tando apenas com suas próprias forças. Os homens jamais poderiam conceber, por si mesmos, um evangelho que en­volvesse fé em Cristo como sendo ambos, Filho de Deus e Filho do homem. Como, portanto, poderiam eles estar dispostos ou ser capazes de receber o evangelho? João não estava anunciando as virtudes do "livre-arbítrio", e, sim, as riquezas do reino de Deus, dadas a conhecer ao mundo inteiro, através do evangelho. João também mostrou quão poucos são aqueles que recebem o evangelho, exatamente pela razão que o "livre-arbítrio" dos homens a ele se opõe. O poder do "livre-arbítrio" resume-se nisto — Satanás domina-o inteiramente, de tal maneira que o "livre-arbítrio" rejeita a graça de Deus. E também rejeita o Espírito Santo, o qual cumpre em nós a lei, visto que o "livre-arbítrio" imagina que é capaz de obedecer à lei mediante os seus próprios esforços.
Por fim, você cita Paulo como apoio a sua posição. (Logo Paulo, o grande adversário da idéia do 'livre-arbítrio"!) Você usa o trecho de Romanos 2.4: "Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?" E então indaga: "Como poderiam ser acusados de desprezar as realidades divinas, aqueles que não possuem o iivre--arbítrio'? Visto que Deus é o Juiz que compele os homens a praticarem o mal, como poderia Ele condená-los?" Será que você não vê que as palavras de Romanos 2.4 são uma advertência, cujo propósito é fazer os ímpios perceberem quão incapazes são? Tendo-os humilhado, Deus queria prepará-los para acolherem a sua graça.













Capítulo Três

O Que Lutero Pensava Sobre o Ensino de Erasmo

Argumento 1: O método de Erasmo

Argumento 2: Como Erasmo torce os textos

Argumento 3: "Explicação" de Erasmo sobre o endure­cimento do coração do Faraó

Argumento 4: O uso que Deus faz da natureza humana.

Argumento 5: Método usado por Deus para endurecer o homem

Argumento 6: Endurecimento do coração do Faraó, por parte de Deus

Argumento 7: Abordagem de Erasmo sobre Romanos 9.15-33

Argumento 8: A razão natural deve admitir a soberania da vontade de Deus

Argumento 9: Romanos 9.15-33 (continuação)

Argumento 10: A soberania de Deus e o "livre-arbítrio" não podem conviver

Argumento 11: Abordagem de Erasmo sobre Malaquias 1.2,3

Argumento 12: O oleiro e o barro

Argumento 13: A justiça de Deus

Argumento 14: Paulo atribuía a salvação do homem exclu­sivamente a Deus














Argumento 1: O método de Erasmo.
Você procura infundir medo em seus oponentes, reunindo um grande número de textos bíblicos que supostamente dão apoio à idéia do "livre-arbítrio". Em seguida, procura fazer­mos parecer tolos ao sugerir que só dispomos de dois textos bíblicos para nos apoiarmos: Êxodo 9.12 e Malaquias 1.2,3. Você não parece ter ficado, de modo algum, impressionado pelo manuseio desses textos por Paulo, em Romanos 9!
Entretanto, tomarei esses dois textos para mostrar o fortíssimo apoio bíblico de que dispomos.


Argumento 2: Como Erasmo torce os textos.
Você criou uma nova maneira de perder de vista o significado óbvio de um texto. Você insiste que os textos que se manifes­tam claramente contrários à idéia do "livre-arbítrio" devem ter alguma "explicação" que traz à tona o seu verdadeiro sentido. E nós devemos insistir que tal "explicação" só se torna necessária quando é absurdo manter o sentido literal de alguma passagem bíblica. Em todos os demais casos, devemos aceitar o sentido simples e natural das palavras, guiados pelas regras de gramática e de hábitos de linguagem que Deus criou entre os homens. Se agirmos de outro modo, nada mais restará sobre o que possamos ter qualquer certeza. Não basta afirmar que uma "explicação" deve ser necessária. Em cada caso, compete-nos indagar se existe a necessidade, ou se deve haver uma "explicação". Se não puder ser pro­vado que isso se faz necessário, nada se terá conseguido. Um exemplo de suas' 'explicações " é sua abordagem de Êxodo 4.21: "... eu lhe (do Faraó) endurecerei o coração Você diz que essas palavras provavelmente significam: "Per­mitirei que o coração do Faraó seja endurecido". E isso, segundo seu entender porque algumas vezes dizemos algo como "eu te arruinei", quando, na realidade, queremos dizer: "Não te corrigi, quando estavas errado". Entretanto, o sentido daquelas palavras é óbvio e claro. Elas não pre­cisam de qualquer "explicação". A Palavra de Deus deve ser interpretada em seu sentido mais claro, naquele que as próprias palavras transmitem. Não nos compete reescrever as palavras do Senhor, a nosso bel-prazer, ou nos desco­briremos "explicando" as palavras "Deus criou os céus e a terra", para que digam: "Ele os pôs em seus devidos lugares, todavia não os criou do nada"! Apoiar essa prática, significaria que qualquer pessoa no mundo poderia tornar-se um teólogo, tão logo quanto abra sua Bíblia.


Argumento 3: "Explicação" de Erasmo sobre o endureci­mento do coração do Faraó.
Você interpreta as palavras: "...eu lhe endurecerei o cora­ção...", como se elas significassem: "Minha longanimidade, mediante a qual tolero o pecador, e que leva outros ao ar­rependimento, faz apenas com que Faraó torne-se cada vez mais obstinado em sua impiedade". Você trata Romanos 9.18 e Isaías 63.17 da mesma maneira. Entretanto, eu tenho apenas a sua palavra de que essas são as explicações corretas. É verdade que você cita Orígenes e Jerônimo, mas quem pode convencer-me de que eles estavam com a razão?
Em suma, o resultado da sua "explicação" é inverter o sentido desses textos. Deus diz: "Endurecerei o coração de Faraó". Você faz Deus dizer: "Faraó endurecerá o seu próprio coração". E atribui o endurecimento do coração do Faraó à misericórdia divina. Se você continuar assim, terminará por transformar a misericórdia de Deus em ira e a ira de Deus em misericórdia. Naturalmente, sabemos que a misericórdia de Deus pode produzir o endurecimento do coração de algumas pessoas, assim como a sua ira. Sabemos também que a misericórdia de Deus abranda alguns corações, assim como a sua ira. Todavia, isso não é desculpa para agora confundirmos a ira de Deus e a misericórdia de Deus.
Ele disse que endureceria o coração do Faraó, e então o afligiu e castigou com dez pragas. E você quer transformar essas pragas em atos da misericórdia de Deus! Que idéia mais ultrajante poderia ser ouvida do que essa? A misericórdia de Deus se manifestou também quando Ele suspendeu vez após vez cada praga, quando o Faraó parecia ter-se arre­pendido; porém aquelas pragas foram o meio usado por Deus para castigar o Faraó, e endurecer seu coração.
Suponhamos que Deus endureça corações quando exerce a sua longanimidade, deixando de dar o imediato castigo. Ainda assim os corações dos homens não serão abrandados senão pelo Espírito do Senhor. Portanto, não importa qual processo seja usado, os corações são endure­cidos segundo a vontade de Deus e também são abrandados por ela.
Você diz: "Assim como sob os mesmos raios de sol a lama é endurecida e a cera derretida; e, após as mesmas chuvas, o terreno cultivado produz fruto, e o terreno sem cultivo produz espinhos, assim também, mediante a mesma longanimidade de Deus, alguns homens são endurecidos, e outros se convertem". Entretanto tal ilustração em nada ajuda a confirmar sua posição. Você garante que todas as pessoas são idênticas — todas possuem "livre-arbítrio". Todavia é a eleição por Deus que estabelece a distinção entre os homens. Sem a eleição divina, todos estão livres apenas para desafiar a Deus. Mas, você afirma que não há eleição. O resultado disso é que você está diante de um Deus impotente, e homens e mulheres estão sendo salvos ou condenados sem o conhecimento dEle. Ele meramente exibe diante deles a sua bondade. Em seguida, Ele nada mais pode fazer, senão, talvez, ir participar de algum banquete! Isso é o máximo que a razão humana pode conceber. Porém o que você fez foi confundir toda a questão, criando dois tipos de "livre--arbítrio", um representado pela cera e pela lama, e outro pelo terreno cultivado e o sem cultivo. Essas ilustrações são inúteis para você. Só fariam sentido se comparássemos o evangelho com o sol e com a chuva. E se comparássemos os eleitos com a cera a o terreno cultivado; e os não-eleitos com a lama e com o terreno sem cultivo. Os não-eleitos são feitos piores, depois de ouvirem o evangelho, e os eleitos melhores, após ouvi-lo.
Você inventou a "explicação" de que o Faraó endu­receu o seu próprio coração em face da bondade de Deus, porque, segundo você afirma, é absurda a idéia de que um Deus que é bom pudesse ter feito isso. Mas, quem diz que essa idéia é absurda? Somente a razão humana sente-se ofendida diante de tal idéia. Compete-nos aquilatar as ações divinas mediante a razão humana, a qual é cega, surda e ímpia? Com base em tais alicerces, a fé cristã inteira é absurda. Conforme Paulo diz, em 1 Coríntios 1.23, é uma loucura para os gentios e uma pedra de tropeço para os ju­deus, que Deus pudesse ser um homem, filho de uma virgem, crucificado e se assentasse à mão direita do Pai. Pela razão humana, é certamente absurdo acreditar em tais coisas.
Porém, seja como for, você não esclareceu a questão, ao asseverar que o homem é o responsável pelo endurecimento de seu próprio coração. Ainda precisa explicar-nos como é que Deus pode exigir que o "livre-arbítrio" faça coisas im­possíveis. Como é que Deus poderia acusar o "livre-arbítrio" de pecaminoso se o mesmo não pode agir de maneira dife­rente? Você apela para a razão humana. Essas coisas são igualmente absurdas para a razão humana.
Permanece o fato que a atuação de todo o "livre--arbítrio" no mundo não poderá jamais impedir que os homens endureçam os seus corações, sem que haja a operação do Espírito Santo.
Você tem dito que Deus não pode ter feito do Faraó o homem corrupto que ele era, pois Deus viu que tudo quanto fizera era bom. Porém esta é obviamente uma refe­rência à criação original de Deus antes da Queda. A partir de então, todos nós, incluindo o Faraó, pertencemos a uma raça ímpia e corrompida. E mesmo que essas palavras façam alusão às obras de Deus após a Queda, elas referem-se à maneira como Deus vê as coisas, e não os homens. Muitas coisas que são boas aos olhos de Deus, são más aos nossos olhos. Por exemplo: as aflições, as tristezas, os erros, o inferno, e todos os mais excelentes feitos de Deus parecem maus aos olhos do mundo. O evangelho é o melhor de todos esses feitos e não há nada, entretanto, que o mundo odeie mais.


Argumento 4: O uso que Deus faz da natureza humana.
Algumas pessoas talvez queiram saber como Deus produz em nós maus efeitos, endurecendo-nos, entregando-nos aos nossos desejos e levando-nos a praticar o erro. Devemos, entretanto, nos contentar com aquilo que a Bíblia nos diz.
A minha resposta é que à parte da graça da eleição, Deus trata com os homens em consonância com a natureza deles. Visto que a natureza deles é maligna e pervertida, quando Deus os impulsiona para que entrem em ação, seus atos são malignos e pervertidos. Imagine um homem que esteja andando em um cavalo com apenas duas ou três pernas saudáveis. Sua cavalgada corresponderá ao que seu cavalo é capaz. Se o cavalo vai mal, o que pode fazer o cavaleiro? O tal homem está cavalgando em companhia de homens com cavalos sãos; embora os demais estejam se saindo bem, seu cavalo estará limitado na sua enfermidade, enquanto não for curado.
Portanto, você vê que, quando Deus faz coisas através de homens maus, coisas más acontecem. O próprio Deus, entretanto, não pode fazer o mal. Deus é soberano. O homem ímpio é uma criatura de Deus, sujeito ao controle divino. Deus não suspende a sua soberania, só por causa da vileza do homem. O ímpio não pode alterar a sua condição. Como resultado, o homem não pode deixar de pecar e de continuar em seu caminho desviado, a menos que, e até que, seja endireitado pelo Espírito de Deus.


Argumento 5: Método usado por Deus para endurecer o homem.
Os ímpios não se interessam por agradar a Deus. Interessam--se apenas em agradar a si mesmos. Eles odeiam e lutam contra qualquer coisa que os impeça de desfrutar de seus desejos egoístas. Isso se verifica, especialmente, quando os ímpios são confrontados com o evangelho. No evangelho, Deus põe uma barreira aos desejos distorcidos dos homens, bem como ao egocentrismo deles, de tal modo que tornam-se amargos e contrários a Deus e à sua Palavra.
Deus não cria uma nova maldade nos corações dos homens. Antes, Ele se utiliza do mal que já se encontra nos corações deles, visando os seus próprios, bons e sábios de­sígnios. Em 2 Samuel 16.10, Davi declara acerca de Simei: "Ora, deixa-o amaldiçoar; pois se o Senhor lhe disse: Amal­diçoa a Davi, quem diria: Por que assim fizeste?" Entretanto, Deus não dera qualquer mandamento para que Simei amal­diçoasse a Davi. Antes, a ação soberana de Deus assegurou que a já maligna vontade de Simei faria aquilo que lhe era natural, no momento e no lugar tencionados por Deus.


Argumento 6: Endurecimento do coração do Faraó, por parte de Deus.
Tendo essas coisas em mente, voltemos ao caso do Faraó. Deus não transformou a natureza do Faraó, por meio do seu Espírito Santo. A vontade do Faraó permaneceu ímpia e maligna. O Faraó estava plenamente seguro de sua grandeza e autoridade. Assim, quando Deus apresentou algo que o ofendia e irritava, ele não pôde evitar de reagir de maneira maldosa. Ele foi ficando mais e mais obstinado, recusando-se a dar ouvidos à razão.
As palavras das Escrituras precisam ser compreendidas de conformidade com o seu sentido claro e evidente. Quando Deus disse: "Endurecerei o coração de Faraó", Ele estava dizendo: "Farei com que o coração do Faraó se endureça". Deus, com a mais absoluta certeza, sabia e, com a mais absoluta certeza, declarou que o coração do Faraó se en­dureceria. Com idêntica certeza, Deus sabia que o Faraó não poderia impedir as ações divinas contra si. E Deus igual­mente sabia que indubitavelmente, como resultado disso, o Faraó tornar-se-ia pior. Uma vontade maligna pode querer somente fazer o mal. Mesmo quando Deus traz algum bem para exercer uma influência benéfica — como no caso do evangelho — a vontade maligna só pode tornar-se pior, torna--se mais endurecida.
Por que Deus não cessa de fazer pressão que, certa­mente, produzirá maus resultados? Isso é o mesmo que pedir a Deus que deixe de ser Deus. Não podemos, realmente, imaginar que Deus deixará de fazer o bem, somente porque os ímpios sempre reagirão adversamente.
Por que Deus não altera a vontade perversa de pessoas como o Faraó? Essa questão toca na vontade secreta de Deus, cujos caminhos são inescrutáveis (Rm 11.33). Se alguém que é orientado por sua razão humana, fica ofendido por causa disso, que assim seja. As queixas nada mudarão, e os eleitos de Deus permanecerão inabaláveis. Poderíamos também perguntar por que Deus deixou que Adão caísse! Não devemos tentar estabelecer regras para Deus. Aquilo que Deus faz, não é correto porque o aprovamos, mas porque Deus assim o desejou. A única alternativa é estabelecer um outro criador, superior a Deus!
Retornemos ao texto. Você ignora o sentido claro do texto porque não o aprecia, e em seguida apresenta a sua própria "explicação". Todavia sempre devemos examinar um texto à luz do seu contexto, para descobrir o alvo e o propósito do autor. O sentido claro é que Deus teria endure­cido o coração do Faraó por meio das pragas. Mas você diz que esse endurecimento ocorreu por intermédio da longanimidade de Deus, e não para a imediata punição do Faraó. No entanto, consideremos o contexto. Deus tinha esperado pacientemente por longo tempo, enquanto o Faraó estava infligindo grande sofrimento sobre os filhos de Israel. Obvia­mente que, quando o Senhor disse que endureceria o coração do Faraó, tencionava algo diferente — uma mudança em sua longanimidade e não a continuação da mesma atitude longânima. Sabemos por que houve uma modificação na atitude de Deus. Deus tencionava livrar o seu povo da ser­vidão do Egito. Queria dar ao seu povo razões adicionais para confiarem nEle. A resistência do Faraó atrairia mais pragas e cada nova praga demonstraria o poder de Deus. E não somente isso; a cada nova praga, Moisés registra que o coração do Faraó se endurecia, conforme o Senhor havia dito. E isso servia para maior fortalecimento da fé dos israelitas em Deus.
Você deseja que o Faraó tenha um arbítrio que é li­vre para submeter-se ou para rebelar-se, e também insiste que esse texto indica que o Faraó endureceu o seu próprio coração, não Deus. Mas veja o que isso significaria. Deus seria dependente do "livre-arbítrio" do Faraó e não poderia ter dito com antecedência, a Moisés e aos israelitas, o que aconteceria. Porém, conforme a sucessão dos fatos, Deus endureceu o coração do Faraó. Deus levou o Faraó à ação e o Faraó não pôde agir senão em harmonia com a sua própria natureza maligna. Assim vemos que essa passagem não pode ser usada para apoiar, mas apenas para argumentar forte­mente contra o "livre-arbítrio".


Argumento 7: Abordagem de Erasmo sobre Romanos 9.15-33.
Você está terrivelmente atormentado por essa passagem. Está determinado a defender o "livre-arbítrio" a qualquer preço, e assim, acaba dizendo toda a sorte de coisas contraditórias, especialmente acerca da presciência de Deus. Esclareçamos isso. Por exemplo, Deus sabia de antemão que Judas Iscariotes haveria de ser um traidor, por conseguinte, Judas tinha de ser um traidor. Judas não tinha capacidade de agir de outro modo. Obviamente, Judas agiu espontânea e livremente, em harmonia com sua própria natureza. Deus sabia de antemão que Judas estava predisposto a agir e trouxe a ação dele à cena, no momento determinado.
Em nada lhe ajuda falar sobre a chamada presciência humana, porquanto ela fica muito aquém da presciência per­feita de Deus. Sabemos, por exemplo, quando um eclipse acontecerá. Mas tal eclipse não acontece porque o prevíramos. Porém, quando Deus prevê alguma coisa, ela acontece porque Ele assim previra. Se você não aceita isso, mina todas as ameaças e promessas de Deus. Você nega o próprio Deus.
Em dado momento, você teve o bom senso de admitir que Paulo ensina que Deus quer aquilo que prevê, e que aquilo obrigatoriamente acontece. Mas então, você estraga tudo, dizendo que acha isso difícil de aceitar. Assim, tenta escapar dessa conclusão, afirmando que Paulo não explicou o ponto, mas somente repreendeu quem estava argumentando com ele (Rm 9.20). Não é essa a forma de manusear os textos sagrados. Um exame do texto mostrará que Paulo explica a questão. De fato, não teria havido razão alguma para a reprimenda, se não houvesse pessoas argumentando contra a sua explanação. Paulo cita Êxodo 33.19: "Farei passar toda a minha bondade diante de ti, e te proclamarei o nome do Senhor; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer". Em se­guida, o apóstolo explica que os atos divinos de misericórdia ou de endurecimento não dependem, em coisa alguma, da vontade do homem, mas, exclusivamente, do próprio Deus. Paulo deixou claro que a presciência de Deus determina as ações realizadas pelos homens. Naturalmente, se tentarmos provar tanto a presciência de Deus como o "livre-arbítrio" humano, ao mesmo tempo, teremos problemas — como tentar demonstrar que certo algarismo é, ao mesmo tempo, um nove e um dez!
A repreensão de Paulo é para aqueles que se ofendem com a palavra clara que ninguém é possuidor de "livre--arbítrio", e de que todas as coisas dependem exclusivamente da vontade de Deus. É este o momento para adorar a ma­jestade do Senhor, em sua imponência e notáveis julgamentos e dizer: "...faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu" (Mt 6.10).


Argumento 8: A razão natural deve admitir a soberania da vontade de Deus.
A razão natural precisa admitir que Deus seria uma divindade muito débil e patética se a sua presciência fosse indigna de confiança, e se pudesse ser contrariada pelos acontecimentos. Naturalmente, os homens objetarão ao pensamento que Deus, que é bom, os possa abandonar, endurecer e condenar, como se Ele tivesse prazer com os pecados e tormento eterno deles. Já tropecei, eu mesmo, nesse ponto por mais de uma vez, caindo no mais profundo poço de desespero, desejando nunca ter nascido. (Isso sucedeu antes de eu reconhecer quão sau­dável é esse desespero, e quão próximo ele está da graça divina.) Essa é a razão pela qual os homens têm tentado encontrar "explicações" e manter seus próprios raciocínios, em detrimento do que é plenamente ensinado pela Palavra de Deus.
Porém, mesmo que os raciocínios da incredulidade se sintam ofendidos, eles são forçados a admitir a soberania da vontade de Deus, ainda que a Bíblia não existisse, porquanto duas coisas estão gravadas nas consciências dos homens — o fato que Deus é soberano e que Ele conhece de antemão todas as coisas, sem exceção ou equívoco.


Argumento 9: Romanos 9.15-33 (continuação).
Em Romanos 9.20,21, Paulo diz que os homens são como o barro, e Deus como um oleiro. Nada poderia ser mais claro do que dizer que todo o propósito de Paulo é negar o "livre-arbítrio" humano. O ponto principal de Paulo nessa epístola é que, se no homem há poder suficiente para salvar a si mesmo, qualquer argumento em favor da graça divina é inútil. Paulo confirma isto ao dizer que Israel não alcançou a justiça por buscá-Lo, enquanto que os gentios alcançaram--na por não buscá-Lo (vv. 30,31). E ele mesmo, em Romanos 11.20,23, barra os jactanciosos do "livre-arbítrio" ao dizer que eles não são capazes de crer, mas que "Deus é poderoso para os enxertar".


Argumento 10: A soberania de Deus e o "livre-arbítrio" não podem conviver.
Temos aqui uma demonstração do seu raciocínio, Erasmo. Você diz: "No tocante à inquebrantável presciência de Deus, Judas fatalmente fo> destinado a tornar-se um traidor; mesmo assim, Judas era capaz de mudar a sua vontade". Você per­cebe o que está dizendo? Se você está certo, então Judas tinha a capacidade de alterar a presciência de Deus, fazendo-a indigna de nossa confiança. Entretanto, você não trata com o problema. Você age como um capitão que conduz o seu exército até ao campo de batalha, para então abandoná-lo quando sua ajuda é mais necessária! Você passa a falar sobre algo diferente — se a vontade do homem é perturbada pela soberania de Deus. Eu faço uma pergunta, mas você responde outra! Porém, não o deixarei escapar do anzol tão facilmente. Você precisa enfrentar seu próprio dilema. Como é que esses dois conceitos podem concordar: "Judas pode desejar não trair" e "Judas deve necessariamente desejar trair"? Não são duas idéias diretamente opostas e contraditórias?


Argumento 11: Abordagem de Erasmo sobre Malaquias 1.2,3.
Agora, precisamos voltar para o segundo dos dois textos que você admite que talvez dê apoio à minha posição sobre o "livre-arbítrio", embora você realmente negue que assim seja. Qual é o seu argumento? Lemos em Gênesis 25.23: "...eo mais velho servirá o mais moço". E a sua "expli­cação" é algo como: "Corretamente compreendida, essa passagem não diz respeito à salvação; pois Deus pode querer que um homem seja um servo e um mendigo, sem que seja rejeitado para a salvação eterna".
Que mente escorregadia tem você ao tentar escapar da verdade! Mas, você não pode escapar. Pense no uso que Paulo fez desse texto, em Romanos 9.12,13. Estaria Paulo torcendo as Escrituras, ao mesmo tempo que lançava os fun­damentos da doutrina cristã? Certamente que não! Jerônimo ousou comentar: "As coisas têm uma força, nos escritos de Paulo, que não possuem em seu contexto original". Jerônimo pode dizer tal coisa, mas isso não prova nada. Pessoas como Jerônimo nem compreendem Paulo e nem os trechos bíblicos por ele citados. Não posso concordar que o trecho de Gênesis 25.21,23 refira-se somente a uma pessoa que serve à outra; contudo, suponhamos por alguns momentos que assim fosse. Mesmo assim, podemos perceber que Paulo citou correta­mente a passagem, para demonstrar que não havia mérito nem em Jacó nem em Esaú. Paulo estava discutindo se o que foi relatado a respeito deles, foi obtido pelos méritos do "livre-arbítrio"; e mostra que não foi assim. Tudo fora determinado antes que eles nascessem.
Os comentários de Paulo sobre Gênesis 25.23 não devem ser entendidos como se envolvessem mera questão de serviço humilde. Estão envolvidas questões de salvação eterna. Jacó fez parte do povo de Deus. A promessa feita a ele incluía tudo quanto pertence ao povo de Deus — a bênção, a Palavra, o Espírito Santo, a promessa de Cristo e o reino eterno de Cristo. Isso é confirmado em Gênesis 27.27 e versículos seguintes. Por conseguinte, a nossa resposta a Jerônimo é que todas as passagens citadas pelos apóstolos têm mais força em seus contextos originais do que em seus comentários!
Como no trecho de Malaquias 1.2,3, que Paulo tam­bém cita: "Eu vos tenho amado, diz o Senhor; mas vós dizeis: Em que nos tem amado? Não foi Esaú irmão de Jacó? disse o Senhor; todavia amei a Jacó, porém aborreci a Esaú; e fiz dos meus montes uma assolação, e dei a sua herança aos chacais do deserto". Você, Erasmo, tenta de três maneiras diferentes, escapar do claro sentido dessas palavras.
Na primeira, dizendo que não podemos entender li­teralmente essas palavras, porque o amor e a ira de Deus diferem do amor e do ódio humanos, não tendo neles qualquer traço das paixões humanas. Ora, todos sabem que o amor e a ira de Deus não se assemelham às paixões humanas; porém, a questão com que ora nos defrontamos não requer que perguntemos como Deus ama ou odeia, mas por que Deus ama ou odeia. Porém, visto que você prefere desviar a atenção para como Deus ama ou odeia, vejamos, por um momento, se isto colabora com a sua posição. De fato, não a ajuda em nada. O amor e a ira de Deus não estão sujeitos a alterações, conforme ocorre conosco. Em Deus, ambos são eternos e imutáveis. Foram fixados muito antes que o "livre-arbítrio" fosse possível. Vemos nisso, que nem o amor nem a ira de Deus espera pela reação humana, mas antecedem à mesma. Isso torna-se ainda mais claro quando perguntamos por que Deus ama ou odeia. O que poderia ter feito Deus amar a Jacó ou odiar a Esaú? Certamente, não por qualquer coisa que eles tivessem feito, pois a atitude de Deus para com eles foi estabelecida e declarada antes mesmo de terem nascido, e não havia muita atuação do "livre-arbítrio" naquela ocasião!
A sua segunda tentativa, para escapar do claro sentido das palavras, é que você diz que Malaquias não parece estar falando da ira mediante a qual somos eternamente conde­nados. Você sugere que Malaquias está falando apenas das dificuldades experimentadas aqui na terra. Uma vez mais, essa é uma sugestão caluniosa de que Paulo está usando er­roneamente as Escrituras. Novamente, vejamos se a tentativa de escapar do sentido claro das palavras ajuda a sua posição. Sem dúvida, o ponto de Paulo nesses versículos é enfatizar a completa ausência de mérito ou do exercício do "livre--arbítrio". Mesmo que Paulo esteja somente tratando com coisas experimentadas na terra, ele continua usando uma ilustração apropriada da vida de Jacó e Esaú. Seja como for, é falso sugerir que Malaquias refere-se somente a coisas experimentadas na terra. O contexto da passagem demonstra que seu propósito é repreender o povo de Israel porque eles não correspondiam ao amor que Deus tinha por eles. O amor de Deus envolvia mais do que as bênçãos terrenas, pois essa passagem mostra que o nosso Deus é o Deus de todas as coisas. Ele não se contentava em ser um Deus que recebe a adoração da metade de seus corações, a quem se oferecesse um animal doente "...o dilacerado, o coxo e o enfermo" (Ml 1.13). A verdadeira adoração a Deus devia ser prestada de todo o coração e forças. Pois Ele é Deus tanto aqui, como no mundo vindouro, em todas as ocasiões, em todas as questões, em todos os tempos e em tudo quanto se faz.
A sua terceira tentativa de evitar o pleno significado de Malaquias 1.2,3 consiste em afirmar que Malaquias quis dar a entender que Deus ama a alguns judeus e odeia a outros. Você diz que isso abre o caminho para a incredulidade por parte de alguns dos judeus, e que em vista disso eles merecem ser cortados. E também pensa que a sua "interpretação" abre o caminho para a fé de outros judeus, e que mediante essa fé eles merecem ser novamente enxertados na boa oliveira.
Você não sabe o que está falando! Sei perfeitamente bem que os homens são cortados por causa da incredulidade e enxertados pela fé, e que devem ser encorajados e motivados a crer. Entretanto, isso não tem nada a ver com crer ou não crer através do poder do "livre-arbítrio".


Argumento 12: O oleiro e o barro.
O terceiro texto que você diz que talvez dê apoio à minha posição é Isaías 45.9: "Ai daquele que contende com o seu Criador! e não passa de um caco de barro entre outros cacos. Acaso dirá o barro ao que lhe dá forma: Que fazes? ou: A tua obra não tem alça", ou como diz Jeremias 18.6: "...eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel". Obviamente, esses textos apóiam minha posição, mas você tenta diminuir a força deles, dizendo que o trabalho do oleiro refere-se às nossas experiências na vida terrena. Você sugere que quando o apóstolo Paulo usa esses textos, em Romanos 9, ele faz um acréscimo ao suposto sentido original deles, fazendo-os referir-se à eleição pessoal. Isso é caluniar a Paulo. Em seguida, você aumenta ainda mais sua confusão, ao referir-se a 2 Timóteo 2.20,21: "Ora, numa grande casa não há somente utensílios de ouro e de prata; há também de madeira e de barro. Alguns, para honra; outros, porém, para desonra. Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra".
Você afirma que Paulo estava escrevendo sobre o mesmo tema de Isaías 45.9, Jeremias 18.6 e Romanos 9. E passa a ridicularizar a idéia de um vaso de barro que se purifica a si mesmo. No entanto, diz que Paulo ordena ao vaso agir assim, e prova, para sua satisfação pessoal, que, em vista disso, o vaso representa os homens, que são dotados de "livre-arbítrio".
A minha resposta é que Paulo, em 2 Timóteo 2.20,21, não estava aludindo ao mesmo tema, como nos outros textos. Estava usando uma cena doméstica a fim de ilustrar um tema totalmente diferente — a piedade pessoal do crente. Além do mais, quem recebe ordens para agir não são meros vasos, e, sim, os crentes. Os crentes é que precisam purificar-se de tudo quanto desonra a Deus. No tocante aos vasos, alguns são honrosos e outros não, mas quem decide o uso que será dado a cada um deles é o proprietário dos mesmos, e não os próprios objetos.


Argumento 13: A justiça de Deus.
Agora você apela para o raciocínio humano. Não pode aceitar o direito que Deus tem de lançar os ímpios no fogo eterno. Conforme você sugere, isso não é razoável, porque Deus criou os ímpios conforme eles são. E assim a verdade vem à tona! Você assume a mesma postura dos queixosos, que Paulo cita, em Romanos 9.19: "De que se queixa ele [Deus] ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade?" Isso posto, a razão humana demanda que Deus aja de acordo com as idéias humanas acerca do que é certo e do que é errado; e o Soberano que criou todas as coisas deve submeter-se à sua própria criação! Então, regras devem ser estabelecidas, pelas quais Deus só possa condenar aqueles que, segundo o nosso parecer, merecem ser condenados! Quando Deus salva aqueles que merecem a condenação, ninguém reclama. Mas, quando Deus os condena, ouve-se um grande protesto. Nisso se manifesta a perversidade do coração humano. Quando os homens raciocinam dessa maneira, eles estão deixando de louvar a Deus como Deus. Estão furtando de Deus o seu direito soberano. Se não poderemos compreender como um Deus justo pode salvar a homens ímpios, até que cheguemos no céu, como entenderíamos que um Deus justo pode condenar os ímpios? Não obstante, a fé continuará a crer que assim sucede, até o dia em que o Filho do homem será revelado.


Argumento 14: Paulo atribuía a salvação do homem exclusivamente a Deus.
Não há contradições nas Escrituras, senão aquelas que você cria com suas "explicações". É desse modo que as confusões surgem. Por exemplo, não existe contradição entre "se al­guém a si mesmo se purificar" (2 Tm 2.20-21) e "Deus é quem opera tudo..." (1 Co 12.6). O primeiro texto sim­plesmente esclarece o que o homem deve fazer. Isto não significa que ele tenha a capacidade para fazê-lo mediante o "livre-arbítrio", sem a ação da graça. Eu sei que você está convencido de que quando um mandamento é dado, isto implica na capacidade para obedecer. Mas isso é um contra--senso. O segundo texto estabelece claramente que todas as coisas são obras de Deus. Não há contradição. Paulo é consistente em todos os seus ensinos de que a salvação dos homens se dá exclusivamente através do poder de Deus.






























Capítulo Quatro

Comentário de Lutero Sobre o Estudo de Erasmo Acerca de Textos Que Negam o "Livre-arbítrio"

Argumento 1: Gênesis 6.3

Argumento 2: Gênesis 8.21 e 6.5

Argumento 3: Isaías 40.1,2

Argumento 4: Isaías 40.6,7

Argumento 5: Jeremias 10.23

Argumento 6: Provérbios 16.1

Argumento 7: João 15.5

Argumento 8: A cooperação do homem com Deus não comprova o "livre-arbítrio"

Conclusão























Finalmente chegamos ao ponto onde você trata do texto que usei para provar que o "livre-arbítrio" é falso.


Argumento 1: Gênesis 6.3: "O meu espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal".
Em primeiro lugar, você argumenta que a palavra "carnal", neste verso, significa a fraqueza humana. Todavia, o sentido desse termo é o mesmo de 1 Coríntios 3.1-3, onde Paulo chama os coríntios de "carnais" ou "mundanos". Paulo não está se referindo à fraqueza, mas à corrupção. No trecho citado, Moisés está se referindo a homens que se casavam movidos por mera concupiscência, os quais estavam enchendo a terra de violência, ao ponto em que o Espírito de Deus não podia mais suportá-los. Você observará que, nas Escri­turas, sempre que a palavra "carne" é contrastada com a palavra "espírito", ela significa tudo aquilo que se opõe ao Espírito de Deus. Somente quando a palavra "carne" é usada isoladamente é que se refere ao corpo físico. À vista disto, essa passagem tem o seguinte significado: "Meu Espírito, que está em Noé e em outros homens santos, repreende os ímpios através da Palavra pregada, e através de suas vidas piedosas. Porém, isso é inútil, pois os ímpios estão cegos e endurecidos pela carne; e, quanto mais são julgados, piores se tornam". Isso sempre acontece, e é óbvio que, se os homens vão de mal a pior, mesmo quando o Espírito de Deus opera entre eles, então, são totalmente impotentes sem o Espírito. O "livre-arbítrio" não pode fazer nada além de pecar.
Em seguida, você nos informa que o texto não se refere a todos os homens, mas somente àqueles que viveram naquela época. Mas, tal interpretação não é válida, pois Cristo afirmou acerca de todos os homens: "O que é nascido da carne, é carne..." (Jo 3.6). E Jesus acabara de sublinhar a seriedade dessa condição, ao dizer: "...se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (Jo 3.3).
Por fim, você assevera que o texto não salienta o juízo de Deus, mas a sua misericórdia. Porém, tudo quanto você precisa fazer é ler o que vem antes e depois do texto. Não pode haver dúvida de que estas são as palavras de um Deus indignado. Portanto, esse texto se opõe ao "livre-arbítrio" e demonstra que no homem não há poder para fazer o bem, mas somente para merecer o juízo de Deus.


Argumento 2: Gênesis 8.21: "...porque é mau o desígnio íntimo do homem, desde a sua mocidade..." Ver também Gênesis 6.5: "...era continuamente mau todo desígnio do seu [do homem] coração".
Você procura esquivar-se do sentido evidente desse texto, ao dizer que há uma disposição para o mal na maioria das pessoas, mas que isso não lhes furta a liberdade da vontade. No entanto, Deus fala aqui sobre todos os homens e não somente acerca da maioria deles. Desde o dilúvio Deus está dizendo que não mais trataria os homens conforme eles merecem ser tratados. Se os tratasse assim, nenhum deles seria salvo. Tanto antes quanto após o dilúvio, Deus declarou que todos os homens são maus, e não apenas alguns deles. Você parece considerar o pecado no homem como coisa de pequena importância, como se fosse algo que pudesse ser facilmente corrigido. Entretanto, essa passagem está dizendo que toda a energia da vontade humana está em praticar o mal. Por que você não examina o texto hebraico original? Moisés de fato escreveu: "E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente" (Gn 6.5). Isso não é meramente uma tendência para o mal. Deus ensina que coisa alguma, senão a malignidade, é concebida ou imaginada pelo homem, durante toda a sua vida. No entanto, você poderia retrucar: "Nesse caso, por que Deus dá ao homem tempo para arrepender-se, se o homem não é capaz de arrepender-se?" A resposta, conforme já reiteramos antes, é que o fato de Deus nos dar mandamentos não implica nossa capacidade para obedecer. Deus nos diz qual é nosso dever, não a fim de provar que podemos observá-lo, mas a fim de humilhar-nos, até que admitamos nossa incapacidade!


Argumento 3: Isaías 40.1,2: "Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai ao coração de Jeru­salém, bradai-lhe que já é findo o tempo da sua milícia, que a sua iniqüidade está perdoada e que já recebeu em dobro da mão do Senhor por todos os seus pecados".
Esta passagem significa que o perdão de Deus é dado àqueles que são totalmente incapazes de obtê-lo ou merecê-lo em qualquer sentido. Você, entretanto, discorda disso. Insiste que o que está em pauta é a vingança de Deus contra os nossos pecados, e não a sua graça. Contudo, quando voltamo-nos para o Novo Testamento, descobrimos que esse trecho fala sobre o perdão do pecado, proclamado pelo evangelho! Analisemos o texto.
Suponho que a palavra "consolo" não signifique a execução do julgamento de Deus! Em seguida o texto diz: "Falai ao coração de Jerusalém..." Isso significa: Dizei a Jerusalém palavras de amor — doces e gentis. Além disso, as palavras ".. .tempo da sua milícia'' referem-se ao terrível peso da luta para se merecer o perdão, através da obediência à lei (At 15.7-10). Esse tempo havia chegado ao fim por causa do perdão gratuito de Deus. Aquele povo já havia recebido "em dobro", da mão do Senhor, o que quer dizer que receberam tanto a remissão dos pecados quanto o livra­mento da terrível carga imposta pela lei. Por isso se lê que o perdão envolvia "todos os seus pecados", o que dá a entender que aquele povo caracterizava-se pelo pecado e nada mais que o pecado. Acrescente-se a isso que a graça não é a recompensa pelas tentativas do "livre-arbítrio". A graça divina é concedida apesar do pecado e de tudo quanto ele merece.


Argumento 4: Isaías 40.6,7: "Uma voz diz: Clama; e alguém pergunta: Que hei de clamar? Toda a carne é erva, e toda a sua glória como a flor da erva; seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do Senhor. No verdade o povo é erva".
Você diz que a palavra "hálito", nesse trecho bíblico, indica a ira de Deus, e que a palavra "carne" indica a fraqueza do homem que não dispõe de qualquer poder contra Deus. Mas, será que a ira de Deus não teria outra coisa para atacar, senão a infeliz debilidade humana? Ou, pelo contrário, o homem não deveria ser fortalecido?
Depois disso, você afirma que as palavras "flor da erva" significam a glória que se deriva da prosperidade quanto às coisas materiais. Mas, é impossível que tal interpretação esteja correta. Os judeus gloriavam-se de seu templo, circuncisão e holocaustos. Os gregos gloriavam-se em sua sabedoria. Portanto, o que é disperso pelo sopro do Espírito de Deus é a assim chamada "justiça pelas obras", bem como a sabedoria humana. Isso é confirmado pela alusão que Isaías faz a "toda a carne". Somente algumas pessoas gloriam-se na prosperidade material, mas todos os homens, mui natural­mente, jactam-se de seus feitos e de sua sabedoria.
A essa altura, é importante darmos atenção ao trecho de João 3.6: "O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito". Esse texto mostra-nos, claramente, que tudo aquilo que não nasceu do Espírito de Deus é carne. Isso não quer dizer que somente uma porção, ou mesmo uma grande porção do homem natural consiste em carne. E certamente também não significa que a porção mais excelente do homem seja a sua carne. Antes, significa claramente que todos os homens destituídos do Espírito de Deus são "carne", e, por conseguinte, estão sujeitos ao julgamento de Deus.
Você pensa que isso não é verdade. Acredito que existem alguns homens que prefeririam morrer mil vezes, a praticarem um ato vil, ainda que fosse às ocultas e que Deus os viesse a perdoar. O fato é que você continua olhando somente para atos externos. Você precisa olhar para o coração humano. Mesmo que tais pessoas existissem, elas estariam operando para a sua própria glória, visto que, à parte do Espírito Santo, não teriam qualquer desejo de glorificar a Deus com as suas ações.
Você também indaga se tudo quanto é chamado "carne", necessariamente precisa ser considerado ímpio. E eu respondo: Sim. Um homem é ímpio se ele está sem o Espírito de Deus. As Escrituras ensinam que o Espírito é dado com a finalidade de justificar o ímpio. Jesus disse que quem nasceu da carne não pode ver o reino de Deus. Não existe um estágio intermediário entre o reino de Deus e o reino de Satanás. Se alguém não faz parte do reino de Deus, certamente faz parte do reino de Satanás.
Em seguida, você pergunta: "Como posso ensinar que o homem não é nada, além de carne, mesmo quando é nascido do Espírito?" Onde você sonhou com tal coisa? Eu estabeleço uma clara distinção entre "carne" e "Espí­rito". O homem que não nasceu do Espírito, é carne. A pessoa que nasceu do Espírito, é espírito — exceto apenas por aqueles elementos da natureza carnal que ainda restaram para perturbá-la.


Argumento 5: Jeremias 10.23: "Eu sei, ó Senhor, que não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos".
Uma vez mais, você distorce o claro sentido do texto. Você afirma que essas palavras significam que Deus, e não o ho­mem, é o causador de acontecimentos que têm um final feliz, e que isto nada tem a ver com a idéia do "livre-arbítrio". Mas, porventura, as palavras de Jeremias precisam de qual­quer explicação? É óbvio que Jeremias simplesmente quis dizer que a obstinação do povo, ao rejeitar a Palavra de Deus, o havia convencido de que o homem por força própria, é incapaz de praticar o que é direito.
Porém, mesmo supondo que a sua idéia esteja correta. Que benefício procede dela? Pois, se um homem não pode fazer os meros eventos naturais terminarem de modo feliz, como poderia fazer qualquer coisa proveitosa no que con­cerne ao seu destino espiritual?
Você ainda argumenta que muitas pessoas reconhecem a sua necessidade da graça de Deus para viverem corretamen­te, afirmando que elas buscam essa graça orando diariamente pela ajuda divina, e que, ao assim fazerem, estão lançando mão do esforço humano. Mas, nem por isso você está com­provando o poder do "livre-arbítrio". Pois quem solicitará a ajuda do Senhor, senão aqueles em quem habita o Espírito Santo? Aquele que ora, assim o faz pelo Espírito de Deus (Rm 8.26,27).


Argumento 6: Provérbios 16.1: 'O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor".
Você pretende que essa declaração também faça alusão apenas aos acontecimentos comuns da vida. E uma vez mais retruco que mesmo que você estivesse com a razão, isso tornaria ainda mais difícil para nós podermos decidir, por nós mesmos, nosso destino espiritual. E o fato que tudo quanto acontecerá no futuro está decidido por Deus, deveria produzir dentro em nós o temor do Senhor.
Você vincula essa passagem a outros dois trechos ex­traídos do livro de Provérbios. Provérbios 16.4: "O Senhor fez todas as cousas para determinados fins, e até o perverso para o dia da calamidade''. Você faz bem ao salientar que tais palavras significam que Deus nunca criou qualquer criatura má. Bravo! Eu nunca disse que Ele fez tal coisa!
Provérbios 21.1: "Como ribeiros de águas, assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer, o inclina". Você comenta que a palavra "inclina" não significa "compele". E também, diz que o rei inclina-se para o mal pela permissão divina, a qual deixa o rei dar vazão às suas paixões. Porém, não importa se você entende isso como sendo a permissão de Deus, ou a inclinação efe­tuada por Ele; continua sendo verdade que nada acontece fora da vontade e da operação de Deus. O texto refere-se a apenas um homem — o rei. O que é verdade acerca do rei, é verdade acerca de todos os demais homens.


Argumento 7: João 15.5: "Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer".
Esse foi o texto, acerca do qual eu disse que ninguém seria capaz de fugir, porém você se aproveita da palavra "nada", para destruir seu significado. Você declara que "nada" significa nada "perfeitamente", a fim de que o texto sagrado diga: ".. .porque sem mim nada podeis fazer perfeitamente". A questão, porém, não é se esse texto pode significar isso, mas se ele realmente significa tal coisa. De acordo com a sua explicação, sem Cristo podemos fazer "um pouco, mesmo que imperfeitamente". Desse modo, suponho que quando João 1.3 diz: "...sem ele nada do que foi feito se fez", isto significa: "...sem ele, foi feito um pouco, mesmo que imperfeitamente". Quanta ignorância! É extremamente perigoso manusear assim as Escrituras. Não é essa a maneira de chegar a consciência dos homens. Fique, portanto, claro que, nesse trecho, "nada" significa "nada".
Sob o domínio de Satanás, a vontade do homem nem mais é livre, nem tem domínio próprio; antes, é escrava do pecado e de Satanás, só podendo desejar o que seu príncipe lhe determina. Você ignora o que se lê em seguida nesse trecho: "Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam" (Jo 15.6). O homem, fora de Jesus
Cristo, é totalmente inaceitável diante de Deus, e seu destino é ser lançado no fogo eterno.
Não posso compreender por que você também cita 1 Coríntios 13.2 em apoio à sua posição. "Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé ao ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei". Se alguém está desti­tuído do amor, sinceramente, ele nada representa diante de Deus, porquanto esse amor é um dom da graça. A questão, enfim, resume-se no seguinte: "nada" significa nada, e nada é capaz de alterar isso! À parte da graça, o homem nada pode fazer. O "livre-arbítrio" nada pode fazer e nada é.


Argumento 8: A cooperação do homem com Deus não comprova o "livre-arbítrio".
Você se utiliza de um bom número de ilustrações que des­crevem a cooperação do homem com as operações divinas. Por exemplo: "o agricultor faz a colheita, mas é Deus que a dá". É óbvio que tenho plena consciência da cooperação do homem com Deus, mas isso nada prova a respeito do "livre-arbítrio". Deus é onipotente. Ele exerce total controle sobre tudo quanto Ele mesmo criou. E isso inclui os ímpios, os quais, à semelhança daqueles a quem Deus justificou e transportou para o seu reino, cooperam com Deus neste mundo. Todos os homens precisam seguir e obedecer aquilo que Deus intenciona que eles façam.
O homem em nada contribuiu para a sua própria criação. E, uma vez criado, o homem não faz qualquer contribuição para permanecer dentro da criação de Deus. Tanto a sua criação como a sua contínua existência são inteira responsabilidade do soberano poder e bondade de Deus, que nos criou e preserva sem qualquer ajuda nossa.
Antes de ser renovado, para fazer parte da nova criação do reino do Espírito, o homem em nada contribui para preparar-se para essa nova criação e reino. Por semelhante modo, quando ele é recriado, em coisa alguma contribui para ser conservado nesse reino. Somente o Espírito de Deus tanto nos regenera quanto nos preserva, sem qualquer ajuda de nossa parte. É como Tiago diz: "Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas" (Tg 1.18). Tiago está falando a respeito da nova criação. Não obstante, Deus não nos regenera sem que tenhamos consciência do que está sucedendo, porque Ele nos recria e preserva precisamente com esse propósito: que venhamos a cooperar com Ele.
E o que é atribuído ao "livre-arbítrio" em tudo isso? Que resta para o "livre-arbítrio"? Nada! Absolutamente nada!

Conclusão
Nesta controvérsia, não quero gerar mais calor do que luz. Porém, se cheguei a argumentar demasiadamente forte, re­conheço a minha falta; se é que houve falta. Mas, não! Tenho a certeza de que o testemunho desta minha conduta é levado ao mundo em defesa da causa de Deus. Que Deus confirme este testemunho no Último Dia! Quem poderia sentir-se mais feliz do que eu? — aprovado pelo testemunho de outros, de haver defendido a causa da verdade, sem preguiça, nem enganosamente, mas com vigor suficiente e de sobra!
Se pareci por demais áspero contra você, Erasmo, peço-lhe que me perdoe. Não agi assim movido por má vontade, mas a minha única preocupação era que, devido à importância do seu nome, você estivesse danificando a causa de Cristo. E quem pode governar sempre a sua pena, especialmente na ocasião de demonstrar zelo? Você mesmo, freqüentemente, lança dardos inflamados contra mim. Mas essas coisas não pesam realmente no debate, e nós, que par­ticipamos dele, devemos perdoar-nos mutuamente por causa dessas coisas; somos apenas homens, e nada existe em nós que não faça parte das características da humanidade. Que o Senhor, a quem pertence esta causa, abra os seus olhos e o ajude a glorificá-Lo. Amém.












Pós-escrito

História Posterior da Controvérsia e sua Importância Atual

Que importância há para o leitor do século XX a contro­vérsia que jaz por detrás do livro de Lutero, "A Escravidão da Vontade"? Enquanto lia esta versão sumariada e simpli­ficada, você deve ter ficado impressionado com a grande habilidade de Lutero no debate. Porém, o que realmente nos deve interessar é se a posição por ele defendida é mesmo ensinada pelas Escrituras. Se o que ele escreveu é o ensino da Palavra de Deus, então precisamos dar-lhe atenção nestes nossos dias.
Algumas pessoas simplesmente chegarão à conclusão de que aquilo que Lutero escreveu chama-se atualmente "calvinismo", e isso fará com que ignorem o assunto. A Igreja Luterana de nossos dias parece estar fazendo exatamente isso, e não há dúvida de que muitos cristãos evangélicos da atualidade farão a mesma coisa.
Quando estudamos sobre o período da Reforma, torna-se-nos patente que os líderes do protestantismo — Lutero, Zwínglio, Calvino, Bucer, Beza, Melanchton, João Knox etc. — concordavam todos que o homem, por sua própria natureza, é incapaz de fazer qualquer coisa que contribua para a sua salvação, e que Deus é absolutamente soberano na sua graça. Os reformadores podem ter diferido a respeito de outras coisas, mas todos concordavam quanto a isso.
Estaríamos expressando a verdade, ao dizer que essa era, verdadeiramente, a doutrina fundamental da Reforma. Com grande freqüência, concebe-se que a doutrina da justificação pela fé seja a verdade central da teologia reformada. Mas os reformadores, ao retornarem ao ensino do apóstolo Paulo, enfatizaram que a salvação do pecador deve-se inteiramente à graça gratuita de Deus. A doutrina da justificação pela fé é importante porquanto salvaguarda o princípio que afirma que o homem é um pecador totalmente incapaz, que só pode ser salvo mediante a graça divina. Porém, a verdade central da Reforma é que a graça de Deus é soberana e é conferida gratuitamente.
Nunca cessou totalmente a oposição contra a posição assumida pelos reformadores. Chegou mesmo a crepitar fortemente dentro da heresia arminiana, a qual nega que o homem seja totalmente incapaz, sugerindo que a salvação realmente depende de algo que fazemos por nós mesmos. Esses princípios foram ensinados por um homem de nome Jacó Armínio, que era professor de teologia da Universidade de Leyden, na Holanda, no ano de 1603. Em 1618, um sínodo internacional reuniu-se por seis meses em Dortrecht (Dort). Ali, os ensinamentos de Armínio e de seus seguidores foram rejeitados e denunciados.
O arminianismo, entretanto, não morreu por causa do sínodo de Dort. Continua vivo e ativo. João Wesley popularizou-o, e essa posição continua tendo muitos segui­dores. Mas, o que o ensino arminiano faz é dividir a salvação dos pecadores, entre Deus e os próprios pecadores. Diz que parte da salvação cabe a Deus e outra cabe ao homem. Por sua vez, o ensino da Bíblia, em torno do qual os reformadores estavam concordes, confere a Deus todo o crédito pela nossa salvação. A salvação depende da graça soberana de Deus, da completa e perfeita obra de Jesus Cristo, e da eficaz e toda-poderosa atuação do Espírito Santo. Deus é quem recebe toda a glória: "A salvação vem do Senhor".
O arminianismo aproxima-se muito dos ensinos de
Roma acerca da salvação, pois ambos ensinam que Deus é incapaz de salvar o pecador sem a cooperação dele! (Se a cooperação do pecador é essencial, como Saulo de Tarso poderia ter sido salvo?) O ensino arminiano é uma negação e rejeição do cristianismo neo-testamentário em favor de uma religião de obras humanas. Depender de si mesmo quanto à fé não é diferente de depender de si mesmo quanto às obras. Uma posição é tão anticristã quanto a outra.
O livro que você acabou de ler trata de uma questão vital. O que Lutero defendia continua digno de ser defendido. O que os reformadores sustentavam continua digno de ser sustentado. Lutero e os demais reformadores ensinavam a salvação pela graça, conforme é claramente revelada na Pa­lavra de Deus. Não há questão mais importante do que essa em nossos dias. O que Lutero escreveu continua necessário hoje! A Palavra de Deus nunca se torna obsoleta, e Deus continua falando aos homens hoje, como sempre o fez.





































CONTRACAPA

Lutero considerou a doutrina da escravidão da vontade como a pedra angular do evangelho e o verdadeiro alicerce da fé cristã. Em "Nascido Escravo", um resumo da sua obra suma, "A Escravidão da Vontade", temos uma refutação clara e definitiva aos argumentos em favor do livre-arbítrio apresentados por Erasmo na sua defesa da posição humanista da Igreja Católica Romana.
Na luz dos argumentos bíblicos expostos por Lutero, um exame honesto do evangelho apresentado em nossos dias mostra tragicamente que a posição da maioria dos evangélicos está mais voltada para o humanismo de Erasmo do que para a posição bíblica do reformador.

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